Por José Alves de Freitas Neto Professor do Departamento de História da Unicamp desde 2004. Possui graduação e mestrado em Filosofia e doutorado em História Social pela USP (2002). Foi coordenador de graduação em História (2006-2010) e coordena o Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem A reforma universitária de Córdoba (1918): um manifesto por uma universidade latino-americana P ensar e construir uma universidade a par- tir da América Latina era um dos desafios que o movimento estudantil de Córdoba, na Argentina, defendeu em seu Manifesto de 21 de junho de 1918 [1] . A história das instituições eu- ropeias que fincaram raízes em solo americano, ainda durante o período colonial, é marcada por polêmicas relacionadas à existência de especifici- dades em tais instituições, em um lugar diferente de suas origens. A chamada Reforma de Córdoba é considerada um marco na história das universi- dades latino-americanas por ser pioneira na cons- trução de um modelo institucional que atribuiu uma identidade e um modelo de atuação renova- do no ensino superior. A presença de universidades no mundo his- pano-americano remonta às origens do domínio colonial e é um registro das heranças culturais eu- ropeias no Novo Mundo. A Real Pontifícia Univer- sidade do México e a Universidade de São Marcos em Lima, fundadas em 1551, e a Universidade de Córdoba, em 1621, são algumas das mais antigas instituições de ensino que as Américas conhece- ram. Mesmo que o sentido de universidade esteja muito distante da forma como as pensamos atual- mente, sua existência revela, ao menos, a preocu- pação de que saberes e ensinamentos tinham um lugar próprio e que as principais áreas coloniais espanholas deveriam ter seus núcleos para os co- nhecimentos importantes da época, como teolo- gia, filosofia e normas jurídicas. A título de comparação, nas colônias inglesas te- mos a fundação de Harvard em 1636 e de mais seis instituições de ensino superior até 1764. No âmbito da formação, os saberes não se distanciavam da- queles apresentados nas universidades católicas e também estavam atrelados à religião, a ponto dos estatutos da Universidade de Yale, de 1745, exigi- rem na admissão de estudantes o domínio de tre- chos da Bíblia em grego (KARNAL, 2007). Na área colonial da América portuguesa as universidades eram proibidas e alguns poucos colégios jesuítas funcionavam. Cursos superiores tiveram seu início apenas depois da independência do Brasil, com a abertura dos cursos de Direito em São Paulo e Olin- da, em 1827, e as faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, em 1832 (PRADO, 1999). Um longo processo se passou desde as uni- versidades coloniais até a Reforma de Córdoba, no início do século XX, que é o objeto de nossa análise. A concepção de universidade, o papel da educação e da instrução, as transformações científicas e a mudança das próprias sociedades servem como indícios para se pensar as estreitas vinculações entre a formação de uma elite intelec- tual e os processos políticos de cada país. [1] Leia a íntegra nas páginas 71 a 73; texto extraído de http://www.reformadel18.unc.edu.ar/manifiesto.htm 62 Revista Ensino Superior Unicamp História