[REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ HISTÓRIA & LITERATURA] Ano 3, n° 4 | 2013, vol.2 ISSN [2236‐4846] 1 García Lorca anunciando a Guerra Civil Espanhola Syntia Alves Introdução Em períodos históricos de formações sociais, em momentos de valorização coletiva e individual, ou em contextos de guerras e revoluções, o homem encontrou na arte uma maneira de manifestação, estética e inquietante, da vida e da política. São muitos os casos de artistas e obras que se relacionam a momentos históricos cruciais. O escritor Federico García Lorca (1898 – 1936) é um dos muitos exemplos de artista que usou a cruel beleza da arte para falar de sua sociedade e de sua época. Com sua obra, Lorca ultrapassou os limites de seu país, a Espanha, e conheceu o Novo Mundo — Estados Unidos, Cuba e América do Sul — em vivências das quais não saiu incólume. O escritor se impressionou com a beleza e o sofrimento vivido por diferentes povos e culturas, situações que, de alguma maneira, eram-lhe familiares. O dramaturgo e poeta, por meio de sua obra, retratou sua multifacetária Espanha, católica e moura, hostil às mulheres e aos homossexuais, nacionalista e pré- franquista. A poesia e a arte dramática de Lorca, criadas em menos de duas décadas — de 1918, data de publicação do primeiro livro, até 1936, ano de sua morte — são um belo e cruel espelho da agressiva política do século XX. Mas o escritor não saiu imune. Lorca foi assassinado no primeiro mês da Guerra Civil Espanhola. Certamente a direita espanhola estava incomodada há tempos com a postura subversiva, contestadora, atenta e inventiva de Lorca. O dionisíaco Federico foi um sujeito perigoso por não se calar diante de forças autoritárias, usando a arte para expressar sua visão da sociedade, da moral coletiva imposta ao individuo, da falta de liberdade que se espalhava pela Europa junto com o fascismo. Observar algumas das obras de Lorca torna-se um interessante meio de pensar a Espanha que antecede a Guerra Civil Espanhola, os códigos sociais que permeavam a sociedade que de tão conflituosa não pode evitar o confronto fratricida. Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP, pesquisadora pelo Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política), docente na FMU e fotógrafa.