Moisés de Lemos Martins & Manuel Pinto (Orgs.) (2008) Comunicação e Cidadania - Actas do 5º Congresso da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação 6 - 8 Setembro 2007, Braga: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho) ISBN 978-989-95500-1-8 Ligações em transformação RAFAEL PAES HENRIQUES Universidade do Minho Resumo: Na pluralidade da experiência, a cultura tem o papel de atribuir sentido e continuidade à existência. Mas, em momentos de crise, essa articulação pode não funcionar muito bem. Há, nesses contextos, um profundo contraste entre aquilo que se realiza, que acontece, e aquilo que se utiliza para tentar dar ordem ao que se manifesta. As imagens da totalidade entraram em crise e os fragmentos reapareceram depois de radicais críticas à modernidade e seus conceitos. Na nossa época o que constitui-se como novum é que, se ainda há alguma unidade para a dispersão e fragmentação, ela está, cada vez mais, sendo determinada tecnologicamente. Isso porque é à volta da tecnologia que tudo se move e se configura; é ela que organiza, estrutura, dá sentido, feição e forma à experiência contemporânea. A história das ligações é a história da relação do homem com o mundo e, em última instância, da relação dos homens com a verdade. Aproveitando o desvelamento das ligações característico de momentos de crise como a da actualidade, revisitar a origem deste problema pode ser um exercício revelador. Neste sentido, a erótica de Platão ainda determina o quadro em que se pensam contemporaneamente as ligações. Palavras-chave: Técnica, Platão, ligações, verdade. (…) não existe mundo em si: ele é essencialmente um mundo de relações (Nietzsche) 1. Introdução Cultura é o conjunto de sistemas simbólicos que organizam um povo. Ela é constituída por uma série de narrativas que conferem unidade a um determinado grupo. Quer isto dizer que, na pluralidade da experiência, a cultura tem o papel de atribuir sentido e continuidade à existência. Entretanto, em momentos de crise, essa articulação pode não funcionar muito bem. Desse modo: Entre acontecimento e cultura há então uma contradição radical. A cultura é o modo que hoje temos de controlar o acontecimento. A cultura articula, integra e totaliza o que existe em estado de dispersão e fragmento irremíveis. (Martins, s.d.: pp.2) Em outras palavras, há, nesses contextos, um profundo contraste entre aquilo que se realiza, que acontece, e aquilo que se utiliza para tentar dar ordem ao que se manifesta. Por este motivo, torna-se mais fácil dar conta da historicidade das construções simbólicas usadas para organizar a realidade. Vê-se com mais nitidez a fragilidade e artificialidade de determinadas certezas. O que