LIBERDADE E IMPUTAÇÃO MORAL EM SCHOPENHAUER Aguinaldo Pavão 1 No Mundo como vontade e como representação, § 55, Schopenhauer afirma: toda pessoa tosca, seguindo seu sentimento, defende ardorosamente a plena liberdade das ações individuais [die völlige Freiheit in den einzelnen Handlungen], enquanto os grandes pensadores de todas as épocas, inclusive os doutrinadores religiosos mais profundos, a tenham negado. (Schopenhauer, 2005, p. 374). Minha intenção nesse texto é tomar o partido dos toscos. Se Schopenhauer estiver certo, eu vou me contrapor aos “grandes pensadores de todas as épocas”, o que me incomoda um pouco. Também terei de me afastar dos “doutrinadores religiosos mais profundos”, mas isso me causa um incômodo muito pequeno, ou talvez um incômodo zero. Tomo o partido das pessoas toscas não exatamente em virtude de seguir meus sentimentos, mas por acreditar que a liberdade das ações individuais, o poder de escolha dependente da espontaneidade da vontade, é um pressuposto para a imputação moral. A fim de reconstruir em linhas gerais o pensamento de Schopenhauer sobre liberdade e imputabilidade moral, vou começar apresentando o exemplo, oferecido em Sobre a liberdade da vontade, do homem que sai do trabalho às seis horas da tarde. Este homem, ao sair do trabalho nesse horário, cogita diversos cursos de ações possíveis e os considera como dependentes exclusivamente dele, pois acredita possuir uma liberdade absoluta ao agir. Ele acredita que pode ir ao clube ou contemplar do alto de uma torre o pôr do sol, ou ir ao teatro, ou visitar um amigo. Ele pensa inclusive que depende apenas dele sair para as cercanias da cidade e “lançar-se, no vasto mundo, e nunca mais voltar” (2010, p. 90).Todavia, o que ele acaba fazendo é voltar para a casa junto da sua mulher, visto que essa ação – e qualquer outra - é determinada pelo motivo mais forte. A crença de que está em nosso poder, a cada momento que agimos, decidir o que faremos a partir da absoluta autonomia de nossa vontade é uma crença ilusória. Essa crença, que julgo crucial para entendermos a imputação moral (e que mais ao fim retomarei), é repreendida por Schopenhauer a partir da perspectiva de uma vontade que estaria situada no tempo. No Mundo, lemos que a “disputa sobre a liberdade da ação particular, ou seja, sobre o liberum arbitrium indifferentiae, gira propriamente em torno do seguinte problema: se a Vontade reside no tempo ou não” (Schopenhauer, 2005, p. 378). Esse parece um ponto notavelmente positivo na análise de Schopenhauer acerca da doutrina do livre arbítrio. Uma 1 Professor de filosofia na Universidade Estadual de Londrina-PR.