Arq Bras Cardiol 2003; 80: 351-4. Póvoa e cols Alterações eletrocardiográficas nas doenças neurológicas 351 Hospital do Servidor Público Estadual. Correspondência: João Pimenta - Rua das Camélias, 357 - 04048-060 - São Paulo, SP - E-mail: pimenta@cardiol.br Recebido para publicação em 26/11/01 Aceito em 30/4/02 Arq Bras Cardiol, volume 80 (nº 4), 351-4, 2003 Rui Póvoa, Luciano Cavichio, Ana Lúcia de Almeida, Danielle Viotti, Celso Ferreira, Luciane Galvão, João Pimenta São Paulo, SP Alterações Eletrocardiográficas nas Doenças Neurológicas Artigo Original Os distúrbios do sistema nervoso central, reconheci- damente, dão origem a alterações cardíacas manifestadas freqüentemente no eletrocardiograma 1,2 . Apesar do distúr- bio do potássio sérico ter sido sugerido, como fator impor- tante na gênese dessas alterações, em diversos estudos esses achados não foram confirmados 3,4 . A maioria dos trabalhos sugere que estas anormalidades do eletrocardio- grama resultam de distúrbios do sistema autônomo, secun- dários à doença neurológica, promovendo um excesso local de catecolaminas, associada à produção adrenal aumenta- da, e uma ativação dos canais de cálcio, levando a aumento do cálcio citosólico e intramitocondrial, além de liberação de radicais livres, culminando em necrose da banda de con- tração e repercutindo em alterações no eletrocardiograma. Apesar da etiologia das alterações cardíacas ser motivo de especulação científica, existem evidências de que a lesão miocárdica seja mediada por catecolaminas, ocorrendo em alguns casos disfunção importante do ventrículo esquerdo e liberação de enzimas cardíacas, como a troponina-I 5 . Tam- bém é discutido o aumento da pressão intracraniana, como fator na gênese dessas alterações 6 . Os dados de literatura demonstram alta incidência de alterações no eletrocardiograma, na vigência de doenças neurológicas, descrito por Goldstein até 92% numa determi- nada população 7 , fato contraposto ao observado na prática clínica diária. Assim, procurou-se observar a freqüência das alterações no eletrocardiograma nos processos pato- lógicos cerebrais e confrontá-las com as encontradas em literatura. Métodos Estudo retrospectivo da análise de prontuários, num período de seis anos, de 1.590 pacientes internados por doenças neurológicas, como tumores cerebrais, acidente vascular cerebral, hemorragia subaracnóide, hemorragia subdural, aneurisma cerebral ou traumatismo cranioencefá- lico, com idades entre 10 e 60 anos. Foram excluídos todos os pacientes que apresentavam qualquer doença associa- da passível de provocar alterações no eletrocardiograma, Objetivo – Avaliar as alterações eletrocardiográficas de pacientes com processos neurológicos. Métodos – Foram estudados 161 pacientes com doenças neurológicas, por meio da análise do eletrocar- diograma de 12 derivações no momento do processo pato- lógico. Os traçados foram analisados por um especialista que desconhecia qualquer informação sobre os pacientes. Resultados – Os processos neurológicos foram: tu- mor cerebral (41%); acidente vascular cerebral (27,3%); aneurisma cerebral (15,5%); hemorragia subaracnóide (6,8%); hemorragia subdural (5%) e traumatismo cranio- encefálico (4,4%). Os eletrocardiogramas foram normais em 61% dos casos, e das anormalidades encontradas, as mais freqüentes foram as inespecíficas da repolarização ventricular (23,7%). Presença de onda T cerebral (4,6%) e prolongamento do intervalo QT (8,8%) foram as mais características de lesões cerebrais. Conclusão – Houve uma discrepância na incidência de alterações eletrocardiográficas em relação à descrita na literatura, já que nossos achados evidenciaram uma baixa incidência de tais alterações. Palavras-chave: eletrocardiografia, doenças neurológi- cas, intervalo QT