1 IMPÉRIO CARTAGINÊS, A LUTA PELA HEGEMONIA NO MEDITERRÂNEO OCIDENTAL * Prof.ª Dr.ª Regina Maria da Cunha Bustamante 1 Tradicionalmente, a história do domínio cartaginês no Mediterrâneo Ocidental chegou até nós principalmente pelas fontes escritas dos seus adversários, ou seja, os gregos e romanos. A própria denominação da capital deste império confirma o viés da alteridade. Os romanos a chamavam de Karthago, transcrição latina do termo grego Karchedôn. Entretanto, esta palavra se referia a duas palavras fenícias Qart Hadasht, que significam “A Nova Cidade” ou “Cidade- Nova”, indício da sua origem fenícia. A tradição literária (Timeu de Taormina na Sicília, Menandro de Éfeso, Trogo Pompeu, Justino e Virgílio) vinculou a fundação de Cartago à saga de Elissa (ou Elisha), também conhecida por Dido, princesa da cidade fenícia de Tiro. Herdeira da fortuna do seu marido assassinado, Elissa tornou-se alvo da cobiça do seu irmão Pigmalião, rei de Tiro. Juntamente com um grupo de descontentes, conseguiu enganá-lo e fugiu, vindo parar na costa africana, mais precisamente, próxima a atual capital da Tunísia, Túnis. Procurando estabelecer relações cordiais com os nativos, negociou um território para se instalar junto ao rei local, Iarbas, que estava interessado na possibilidade de comércio, mas receoso de um enclave estrangeiro em seu reino. Novamente, utilizando sua engenhosidade, Elissa obteve espaço suficiente para se estabelecer na região. Conseguindo o aceite para ocupar apenas um território do tamanho da pele de um boi, a princesa de Tiro cortou o couro em tiras muito finas, expandindo então consideravelmente a extensão da superfície originalmente contida na pele bovina. De acordo com Justino (Epítome das Histórias de Filipe XVIII, 5), “A Nova Cidade” teve o consentimento de todos: os habitantes locais, que tinham a expectativa de obter ganhos comercializando com os estrangeiros, e os colonos fenícios da cidade vizinha de Útica, que apoiaram seus conterrâneos. Foi fixado um tributo anual a ser pago pela ocupação do solo. Há controvérsias historiográficas sobre o período de fundação da cidade de Cartago, advindas do confronto entre as distintas interpretações da documentação escrita e os escassos vestígios materiais de períodos mais remotos, o que demanda a necessidade de aprofundar os * Texto-base para a publicação de: BUSTAMANTE, R. M. da C. Império Cartaginês, a luta pela hegemonia no Mediterrâneo Ocidental. In: SILVA, F. C. T. da; CABRAL, R. P.; MUNHOZ, S. J. (Org.). Os impérios na história . Rio de Janeiro: Campus-Elsevier, 2009, p. 15-26. 1 Professora e pesquisadora do Laboratório de História Antiga (LHIA) e do Programa de Pós-graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ. Bolsista de produtividade do CNPq.