Os novos enfoques da geografia com o apoio das tecnologias da informação geográfica Reinaldo Paul Pérez Machado Revista do Departamento de Geografia – USP, Volume Especial Cartogeo (2014), p. 203-241. 203 OS NOVOS ENFOQUES DA GEOGRAFIA COM O APOIO DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA Reinaldo Paul Pérez Machado 1 Resumo: Tratou-se neste artigo de relevar o papel da Cartografia e das formas de analisar e representar o espaço, utilizando métodos qualitativos e quantitativos. Foram consideradas, em especial, as novas tendências e desafios das Tecnologias da Informação Geográfica, diante dos principais paradigmas que estão em foco no debate atual na Geografia. A partir do trabalho de Kuhn, em 1970, muitos geógrafos e estudiosos da evolução do pensamento geográfico aplicaram o modelo da mudança de paradigmas ao desenvolvimento conceitual desta ciência. No entanto, analisando a evolução da Geografia do século XX e início do XXI, tem-se observado certa regularidade de ŵudaŶças paradigŵáticas eŶtre os chaŵados períodos de deseŶvolviŵeŶto da ciġŶcia Ŷorŵal, coŵ ciclos de duração eŶtre 20 e 25 anos (Buzai, 1999). Mas também verificou-se que em nenhum momento um paradigma eliminava por completo o anterior, mas o deslocava no tempo. Assim vemos o atual ressurgimento da Geografia Quantitativa, com uma quantidade expressiva de trabalhos e novas propostas de cálculo, análise e modelagem temática complexa, derivadas do impacto que têm exercido as tecnologias da informação neste campo, o que tem dado lugar às denominadas Tecnologias da Informação Geográfica, ou Geotecnologias. No entanto, percebe-se também a presença ativa do chamado Paradigma Humanista, mediante o qual se tem construído uma visão espacial alternativa e independente, seguindo certos fundamentos iniciais, a partir dos estudos culturais de vertentes geográfico-antropológicas (Sauer, 1925, 1927, 1963), e daqueles outros relacionados com os mapas mentais urbanos (Cauvin, 2002; Strauss, 1987; Lynch, 1960). Aqui, a Geografia Humana centra seu foco na relação do mundo interior com o mundo exterior do ser humano, tais como a percepção, as atitudes e a valoração do meio geográfico. Neste sentido, foram analisados diferentes exemplos de aplicações dos SIG diante de uma série de problemáticas territoriais cujos propósitos, estratégias de investigação e conhecimento obtidos se agrupam dentro do reforço do paradigma quantitativo e também na construção de modelos qualitativos, mapas mentais, participativos e colaborativos, dentro do Paradigma Humanista. Estas aplicações mostraram, em geral, opções de soluções aplicadas, com base no desenvolvimento tecnológico e na Geografia atual, como disciplina central. Embora os Sistemas de Informação Geográfica, isoladamente, não sejam considerados como parte da Ciência da Informação Geográfica (Capel, 2005), o desenvolvimento recente (e crescente) das Tecnologias da Informação Geográfica indica que sim, está acontecendo uma mudança paradigmática, que levará, mediante o estabelecimento de fundamentos teóricos, conceituais e ontológicos profundos, à consolidação da Ciência da Informação Geográfica. O desenvolvimento deste processo beneficiará incontestavelmente, todas as expressões do conhecimento geográfico, independentemente de ter ênfase maior nos aspectos físicos ou humanos. 1 Possui graduação em Geografia - Universidad de La Habana (1981), pós-graduação no International Institute for Aerospace Survey and Earth Sciences ITC da Holanda (1990), doutorado em Ciências (Geografia Humana) pela Universidade de São Paulo (2001) e Livre Docência pela Universidade de São Paulo (2012). Realizou pós-doutorado na Universitat de Barcelona (2006-2007), e no Center for International Earth Science Information Network CIESIN da Universidade de Columbia, em Nova Iorque (2009). É professor da Universidade de São Paulo na graduação e na pós-graduação do Departamento de Geografia desde 1994. Participante como Professor Convidado do Programa Erasmus Mundus na Faculty of Geoinformation Science and Earth Observation ITC da University of Twente em Holanda, e na University of Lund, de Suécia (2010). Presidente da Comissão Organizadora e do Comitê Científico do II Simpósio Internacional Caminhos Atuais da Cartografia na Geografia 2º CARTOGEO, celebrado no DG - USP (2010). Tem experiência na área de Cartografia, com ênfase em Geografia Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: geoprocessamento, sistemas de informações geográficas, análise espacial, sensoriamento remoto e as aplicações das Tecnologias da Informação Geográfica nos temas sociais.