FORMAÇÃO E INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA OS DESAFIOS DA PÓS-MODERNIDADE HERCULANO CACHINHO Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa 1. Nota de abertura A nossa participação neste painel-debate sobre Formação e Inovação na Educação Geográfica encontra-se ancorada na ideia de que existe actualmente na sociedade portuguesa uma profunda assincronia entre o(s) modelo(s) dominante(s) de formação de professores de geografia e os papéis atribuídos à escola e, em particular, aos profissionais da educação. Este desencontro, povoado de paradoxos, equívocos e múltiplas contradições, constitui, na nossa perspectiva, tanto uma fonte de desorientação dos professores como um dos principais factores que obstaculizam a mudança e a inovação na Educação Geográfica. Expliquemos isto por outras palavras. Em grandes linhas, pelo menos a avaliar pelas intenções explicitadas no Currículo Nacional, que emerge dos princípios do Decreto- Lei 6/2001 e outros documentos oficiais, emanados pelo Ministério da Educação, hoje espera-se, sobretudo, que a escola eduque, que os professores formem jovens competentes e que os alunos vivam as experiências de aprendizagem capaz de fazer dos mesmos futuros cidadãos responsáveis. No entanto, mesmo se na nossa tese coabitam convicções, intuições e dúvidas, há pelo menos três questões que nos parecem fundamentais na abordagem deste desencontro entre a formação, a inovação e a educação geográfica. As questões são as seguintes: (i) Será que a formação inicial e contínua oferecida aos professores está mesmo preocupada com a educação geográfica dos jovens? (ii) Será que os professores nas escolas são realmente incentivados à promoção da inovação na educação geográfica? (iii) E os alunos? Será que a geografia que aprendem na escola ou pelo menos que os professores se esforçam por ensinar, os dota das competências necessárias e adequadas ao exercício pleno da cidadania? Em relação a estas questões a nossa opinião é, naturalmente, negativa, e o que se passa com a geografia não se afasta significativamente do que ocorre com as restantes disciplinas que corporificam o Currículo Nacional. De facto, uma coisa são as intenções explicitadas no discurso das reformas e das reorganizações curriculares, outra, completamente distinta, é a prática real das instituições e dos profissionais da educação. É certo que ambos estão no mesmo barco ou pelo menos percorrem o mesmo rio, mas até ao momento nada indica que remem para o mesmo lado ou conscientemente pretendam alcançar a mesma margem. Se avançassem juntas, se remassem sincronizadas, tentando vencer os obstáculos com que se deparam, como poderíamos justificar a crise que se instalou na escola, a dificuldade que há hoje em acreditar verdadeiramente na sua utilidade social ou até a progressiva desvalorização estatutária dos professores? Depois, o que nos deixa mais preocupados é que a escola não se encontra apenas moribunda em