Revista Alétheia de Estudos sobre Antigüidade e Medievo – Volume 2/2, Agosto a Dezembro de 2010. ISSN: 1983-2087. 1 Nas vicissitudes do outro: o embate entre Polifemo e Odisseu Fernando Crespim Zorrer da Silva * Resumo: O canto IX, da Ilíada de Homero, apresenta o relato do encontro entre Odisseu e Polifemo. Trata-se de um acontecimento central nessa epopéia. Dois seres, que pertencem a culturas distintas, civilizada e não civilizada, trocam experiências na tentativa de um diálogo. No entanto, não há a possibilidade de um contato no qual esteja presente a harmonia e o respeito; pelo contrário, prevalece a violência, a destruição e o engano. Abstract: Book IX of Homer's Iliad tells the story of the encounter of Odysseus and Polyphemous. It is a central point of the epic poem. Two beings belonging to different cultures, civilized and non-civilized, exchange experiences in an attempt to establish a dialogue. However, there is no possibility of a contact in which harmony and respect are present; on the contrary, violence, destruction and cheating prevail. A epopéia Odisséia apresenta-se como um retrato de um mundo ainda repleto de particularidades a serem investigadas. As esferas das quais o canto IX se ocupa não se limitam a viagens pelo desconhecido, mas apresentam relações de força, de sabedoria e de mediocridade humana. Saúda-se a grandeza do homem; entretanto, se ele realmente conseguiu alguma, isso não nasceu de um processo pacífico. Foi, pois, o resultado de uma longa luta de sofrimento e de perda do controle diante da capacidade de destruir um indivíduo. Bruno Snell localiza o momento da descoberta do espírito do homem na irrupção da tragédia, da poesia lírica, além de destacar os textos de Homero (SNELL, 2001: 17). De fato, o mito de Odisseu é resultado de uma nova compreensão do homem acerca do mundo, mais precisamente na cena entre Polifemo e Odisseu, pois tudo inicia pelo enfrentamento de um ser contra outro. Odisseu passa a refletir, uma vez que ele está relatando aos feácios as suas viagens, as experiências que teve com um ser colossal, representado por Polifemo, quando o herói procurava retornar à Ítaca. Há a presença do truque lingüístico quando Polifemo aceita que o nome do herói seja ‘Ninguém’, canto IX, v. 366. Nessa relação que o herói mantém com o gigante, isso possibilita a Odisseu a construção de especulações a respeito de si mesmo. Na verdade, é a partir do estranho (Polifemo) que Odisseu delimita quem é o seu eu. De fato, o seu estratagema faz do * Doutor em Letras Clássicas pela USP e é pesquisador na área de Literatura Grega e Comparada. O email do autor é zorrer@uol.com.br.