XXIV ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS GT 04 ETNOLOGIA INDÍGENA SESSÃO 1: ORGANIZAÇÃO SOCIAL E PARENTESCO HIERARQUIZAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO Análise das Relações Interétnicas no Rio Negro Renato Athias* Programa de Pós Graduação em Antropologia / UFPE Resumo: Cerca de 19 etnias co-habitam na região do Rio Negro, entre elas os grupos chamados Maku e os Tukano. Pela situação geográfica das localizações de suas aldeias, os Tukano foram descritos como índios-do-rio;, enquanto os Hupdë foram descritos como os índios-da-floresta ou simplesmente Maku, palavra de origem do grupo lingüistico Arawak que significa "sem fala ou sem [nossa] língua" [ ‘ma = prefixo privativo / aku = fala/língua]. Uma das características dos Hupdë é a relação histórica, permanente e complexa, que estes mantém com os índios da família lingüística Tukano oriental (Desana, Tuyuka, Piratapuia e Tariano principalmente) habitantes dos Rios Uaupés, Tiquié e Papuri. Esta relação interétnica faz parte da tradição dos povos desta região e merece ser preservada como forma de garantir o equilíbrio cultural dos povos do Rio Negro. Esta relação já foi descrita como simbiótica, assimétrica e hierárquica, ou mesmo como relações patrão- cliente. O comportamento dos Tukano, em relação aos Hupdë, é justificado através dos mitos que contam a origem dos povos da região. Os Hupdë, de acordo com versões Tukano do mito de origem, foram os últimos a saírem para este mundo, conseqüentemente são considerados como sendo inferiores, os menores de uma escala hierárquica que regula as relações interétnicas e, por isso sujeitos a trabalhos dito inferiores os quais apenas os clãs mais baixo na hierarquia o fazem. Este trabalho apresenta uma revisão da literatura sobre essas relações e apresenta um modelo de análise que permite ampliar o debate há tempo instalado entre os antropólogos, sobre as relações entre estes dois grupos étnicos. Introdução O objetivo principal deste trabalho é o de fornecer pistas e elementos para uma análise das relações interétnicas que se dão na bacia hidrográfica do Rio Uaupés no Noroeste Amazônico especificamente entre os Hupdë-Maku e os Tukano. O modelo de análise proposto para entender essas relações terá como ponto de apoio pesquisas de campo realizadas na região interfluvial dos rios Papuri e Tiquié, território tradicional dos Hupdë-Maku, bem como as pesquisas anteriores explicitadas na literatura etnológica 1 existente sobre os grupos Tukano, Maku e Arawak. Esta questão insere-se num debate há algum tempo instalado entre os antropólogos pesquisadores que atuam na bacia do Rio Uaupés. É importante assinalar como ponto de partida a existência de um *Renato Athias é Doutor em Antropologia pela Universidade de Paris X (Nanterre), é membro do Programa de Pós Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco. Participa do um Projeto de Saúde entre as populações indígenas do Alto Rio Negro através da Saúde Sem Limites/Health Unlimited. zarabata@elogica.com.br .