O design de interação em ambientes de ubiqüidade computacional Interaction design in ubiquitous computing environment Mauro Pinheiro, Rejane Spitz Ubiqüidade computacional, mobilidade, design de interação A partir da caracterização dos sistemas computacionais como ferramentas de interação e comunicação, este artigo propõe ampliar a discussão do design de interação para além da interface. Destaca a importância de estudar as práticas sociais advindas da utilização cada vez mais intensa da tecnologia computacional, tendo em perspectiva a ubiqüidade computacional e a mobilidade como fatores determinantes dos processos de comunicação contemporâneos. Ubiquitous computing, mobility, interaction design From a characterization of computer systems as tools for interaction and communication, this paper seeks to broaden the discussion of designing for interaction beyond the interface. It underlines the importance of studying social practices arising from the increasingly intensive use of computer technology, considering the all-pervasive presence and mobility of computers as decisive factors in contemporary communication processes. Introdução Na sociedade contemporânea é cada vez maior o número de atividades mediadas por sistemas computadorizados. A tecnologia computacional tem se infiltrado no dia-a-dia de uma parcela da população urbana de tal forma que muitas vezes passa desapercebida, sendo utilizada sem grande esforço em tarefas cotidianas nas grandes cidades. Em algumas capitais brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória, os passageiros dos ônibus coletivos urbanos utilizam cartões magnéticos em sensores que controlam as roletas de entrada; estes dispositivos identificam o tipo de usuário (estudante, idoso, motorista, cobrador etc), perfazem cálculos sobre a tarifa da passagem, exibem o saldo restante acumulado no cartão e liberam ou não a passagem pela roleta. Essa operação, mediada pela tecnologia computacional, muitas vezes sequer é compreendida plenamente pelos passageiros, o que não impede que utilizem o sistema sem maiores complicações. É possível que muitos sequer tomem conhecimento dos cálculos e informações dispostas pelo aparelho, limitando-se a compreender que o cartão libera sua passagem pela roleta. A miniaturização dos componentes dos sistemas computadorizados, a ampliação do uso de tecnologias de transmissão de dados através de redes sem fio, e o crescimento da Internet, têm colaborado no estabelecimento de um ambiente no qual os computadores fazem parte do cotidiano de tal maneira que passam a compor o cenário das grandes cidades como elementos camuflados, incorporados a diversos outros artefatos. O computador deixa de ser uma entidade tão evidente para diluir-se no ambiente, mediando atividades do dia-a-dia sem demandar esforço cognitivo para sua utilização. No campo da ciência da computação, fala-se em ubiqüidade computacional (ubiquitous computing ou ubicomp). O conceito foi introduzido na década de 80 por Mark Weiser, pesquisador do Xerox Palo Alto Research Center (Xerox-Parc). Weiser vislumbrava um futuro no qual tecnologias computacionais fariam parte do “tecido da vida cotidiana”, ressaltando que as tecnologias mais avançadas seriam aquelas que desaparecessem no pano de fundo do nosso entorno (WEISER, 1991). A presença da tecnologia computacional poderia ser comparada no futuro com a presença da escrita (considerada uma “tecnologia de informação”) e da eletricidade no cotidiano dos grandes centros urbanos. Ambas seriam exemplos de ubiqüidade: estão presentes em diversas instâncias da vida contemporânea, sem demandar maior esforço cognitivo para sua utilização 1 ; 1 Ressalte-se que a apropriação da escrita como algo que dispensaria esforço cognitivo não diz respeito à interpretação e compreensão de textos, e sim ao ato de leitura em si. Refere-se à leitura das informações que estariam dispostas em diferentes suportes nos grandes centros urbanos, não restringindo-se a jornais e revistas, mas abrangendo a sinalização urbana, embalagens, letreiros de ônibus etc.