141 RESENHAS Clarice Cohn (UFSCar) Os irredutíveis Xikrin. Foi essa a imagem que os Xikrin imprimiram em Gordon quando ele os conheceu. Com ela ele nos brinda ao enfrentar o desafio de compreender essa ilusão do que aparece, ao primeiro golpe de vista, como um caso extremo de submissão indígena à economia capitalista. Porque consumistas, desejando e demandando sempre mais, oferecendo uma pressão inflacionária sobre quem quer que lhes apareça como fonte de bens industrializados ou dinheiro – o antropólogo inclusive –, vivendo, além de tudo, uma situação de afluência, os Xikrin do Cateté parecem ter se rendido. Gordon nos mostrará que, ao contrário, eles resistem. Sua tarefa é tão desafiadora quanto é, para os Xikrin, sua situação atual. Afinal, o quadro que se configura parece irreversível e apontar ao fim dos Xikrin como um povo distinto, com uma cultura distinta.... enfim, um quadro afeito a toda a ladainha da perda e descaracterização cultural. Veja-se uma parte de sua descrição da aldeia: “No crepúsculo, parado em uma das portas laterais do ngàbê [casa central onde se reúnem os homens], tenho uma visão panorâmica de boa parte da aldeia. Ela parece uma pequena cidade ou condomínio, pontilhada de postes de concreto armado que sustentam a eletrificação de todas as casas e do próprio ngàbê. Um ruído quase surdo à distância, mas constante, faz lembrar que o gerador da aldeia trabalha a todo vapor, ou melhor, a óleo diesel, que consome uma taxa média de 10 litros/hora. A praça da aldeia também se encontra iluminada, e alguns [meninos] mebôktire, ainda não vencidos pelo sono, brincam animadamente. Defronte a algumas casas vêem-se sobranceiras antenas parabólicas. Das frinchas emana a inconfundível luz azulada do aparelho de televisão” (:174-175). É essa a aldeia dos irredutíveis Xikrin, a partir da qual resistem aos invasores. Mas toda a questão – Gordon bem o percebe – é entender a particularidade dessa resistência. Há tempos, já, ela não é bélica: os Xikrin abdicaram da luta armada, aceitaram o contrato da pacificação, resolveram partir para outras guerras, com outros meios. Desde sempre, significa outra coisa que se fechar às “influências” dos estrangeiros: ao contrário, é pautada por um desejo por suas coisas – eles não GORDON, Cesar. 2005. Economia Selvagem. Ritual e Mercadoria entre os Índios Xikrin-Mebêngôkre. São Paulo: Editora UNESP/ISA/NuTI. 452 pp. Campos 8(2):141-145, 2007.