O CORPO EM TRÂNSITO NA POESIA DE JORGE DE SENA Fernando Miranda é doutorando em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF/CAPES), com tese sobre corpo e memória nas obras poéticas de Hilde Domin, Jorge de Sena e João Cabral de Melo Neto, sob orientação da professora Dra. Susana Kampff Lages. e-mail: fernandogalo@hotmail.com Resumo O objetivo deste trabalho é refletir sobre alguns aspectos do corpo na obra de Jorge de Sena e fazer uma relação com os comentários de Giorgio Agamben respeito ao papel das identidades biológica e política na sociedade atual. Resumen El objetivo de este artículo es reflexionar acerca de algunos aspectos del corpo en la obra de Jorge de Sena y relacionarlos con la observación de Giorgio Agamben sobre el rol de las identidades biológica y política en la sociedad actual. Em ensaio publicado na versão brasileira da revista Le Monde Diplomatique, o filósofo italiano Giorgio Agamben chama a atenção para o fato de que a obsessão por segurança, ocorrida em diversos Estados do mundo, estaria provocando um processo de despolitização, pois “pela primeira vez na história da humanidade, a identidade não é mais função da 'pessoa' social e de seu reconhecimento, do 'nome' e da 'nomeação', mas de dados biológicos que não podem manter nenhuma relação com o sujeito” (2014, p. 26). Agamben ainda salienta o risco de se estabelecer, como parâmetro político, aquilo que está para além de suas vontades, i.e., seus dados biológicos, gerando um “primado da identidade física sobre a identidade política” (p. 26). Cabe realçar que já não se trata pura e simplesmente dos aspectos exteriores do corpo, da sua aparência, mas sim de elementos biométricos, apenas capazes de ser medidos por aparelhos, ou seja, impossíveis de ser reconhecidos por outro ser humano. Esta prática de controle é, segundo o filósofo, ainda mais severa, em alguns aspectos, que “a dos Estados fascistas do século XX” (p. 25). A partir desta colocação, procuro refletir acerca do corpo e de seu espaço e configuração políticos em alguns poemas do português Jorge de Sena, quem se exilou justamente de um destes Estados totalitários do século XX: o Portugal, do governo de António de Oliveira Salazar. Logo, farei uma articulação entre as leituras dos poemas e as ideias de Agamben, citadas acima, num exercício que visa a estabelecer uma fusão de horizontes entre meados do século XX e a atualidade, no que diz respeito ao tema aqui proposto. Para além dos seus aspectos receptivos – visão, audição, olfato, paladar e tato –, pelos quais o ser humano sente/percebe o mundo que o cerca, não apenas de forma imediata, mas, desde muitos séculos, também de modo mediado, principalmente a partir do século XX, o corpo, além de ocupar, enquanto matéria, um espaço, possui aberturas através das quais ele comunica, se expressa, procura estabelecer uma relação ativa com o mundo e com os demais indivíduos. Nesta relação, ele construirá a sua identidade, pelo gestual, pelo olhar e pela voz. Cito o poema “O ecumenismo lusitano ou a dupla nacionalidade”, de Jorge de Sena: Pela porta lateral da catedral em Colónia (construída – è vero – para os ossos dos Reis Magos) eu saía para o branco sol da manhã de inverno, quando um rumor de português subia em negros hábitos a escada. Freiras a quem falei sim brasileiras peregrinas de pouso em pouso a Roma. Quando eu disse que eu era brasileiro a madre cujo véu