24/08/2016 [REVER N. Março Ano 7 2007] Resenha Frank Usarski http://www.pucsp.br/rever/rv1_2007/r_usarski.htm 1/3 LOPEZ, Donald S. Jr. (ed.) Critical Terms for the Study of Buddhism, Chicago and London: University of Chicago Press, 2005, 353 p., ISBN: 0226493156 por Frank Usarski A coletânea Critical Terms for the Study of Buddhism é fruto dos esforços de um grupo de especialistas que contribuiu para o progresso dos estudos sobre o Budismo por elaborar as implicações ambíguas e os problemas heurísticos inerentes a quinze “termos críticos” usados na referente área de pesquisa. Com a exceção de “Buda”, todos os verbetes são vocábulos ingleses. A palavra “Buda” destacase também por ser o primeiro tópico da lista dos termos críticos discutidos, desta maneira rompendo com o principio de organização alfabética da coletânea. O mesmo vale para a expressão “Modernidade”, discutido no último artigo, um privilégio justificado pelo argumento de que o presente livro inaugura uma série intitulada “Budismo e Modernidade” o organizador achou adequado começar o volume com Buda e o terminar com Modernidade (p. 11). No seu ensaio sobre Buda, Donald S. Lopez Jr. oferece uma síntese interessante com diversos detalhes surpreendentes sobre as confusas especulações que marcavam a fase inicial dos estudos budológicos. Entre as peculiaridades da discussão acadêmica no fim do século XVIII encontrase a tentativa do orientalista inglês Sir William Jones de conciliar o conhecimento então estabelecido sobre o Buda histórico com a idéia hindu de que Buda era uma emanação (avatar) de Vishnu. Prejudicado pela falta de acesso a fontes budistas autênticas, Jones chegou à conclusão de que houve duas personalidades distintas posteriormente confundidas, ou seja, uma figura do século XI a.C. que acabou sendo venerado como avatar de Vishnu, e, mais recente, Siddharta Gautama, oponente dos brâmanes. Embora problemas desse tipo iluminem a precariedade dos primeiros passos da budologia ocidental, Lopez não está interessado em “tentar explicar quem foi o Buda e o que ele realmente ensinou”, mas em “considerar como o Buda parecia – em outras palavras – nas imagens de Buda” (p.7). A busca para respostas a essa pergunta tem se mostrado complexa e tem gerado disputas sobre uma série de assuntos, tais como a hipótese sobre a suposta origem africana de Buda, uma teoria inspirada pela fisionomia negróide expressada por determinadas estátuas de Shakyamuni. Embora essa hipótese tenha sido questionada logo depois da sua primeira articulação, ela continua a chamar a atenção de especialistas pelo menos até a metade do século XIX. O mesmo vale para a interpretação ambígua de outros traços iconográficos especialmente dos relacionados às 32 marcas psicofisiológicas que, conforme a tradição, distinguem o Buda de seres humanos comuns. Segundo Marilyn Ivy, a relevância do tópico modernidade para os estudos sobre o Budismo já se prova pelo fato de que o termo “Budismo” tem sido usado por autores ocidentais apenas a partir da metade do século XIX. Portanto, a própria expressão Budismo, no sentido de uma categoria unificadora e heuristicamente válida, poderia ser abordada como um “termo crítico”. Não obstante, o artigo se concentra na pergunta sobre as possíveis perspectivas para o Budismo em relação ao “projeto” de modernidade. Uma delas apresenta uma visão de que o Budismo serve como um “superabundante repositório de virtudes e possibilidades nãomodernas” (p.318), ou seja, como um contramodelo ou no sentido de uma oposição nostálgica contra a mentalidade corrompida do Ocidente, ou no sentido de um tipoideal da busca para a verdade eterna que transcende fronteiras sócioculturais e históricas, inclusive as limitações da modernidade como uma época distinta da história humana. Essa visão corresponde em parte à classificação de Max Weber da atitude do Budismo primitivo como “misticismo extramundano” e à formulação de um Zen universalista na tradição intelectual da escola de Kyoto. Para fazer justiça à relação multifacetada e ambígua entre Budismo e modernidade, porém, temse que levar em consideração, sob um ponto de vista histórico, a (dis)funcionalidade programática política do Budismo sob distintas circunstâncias nacionais, não apenas no que diz respeito aos paises asiáticos, mas também a partir do tratamento “oficial” do Budismo em determinados contextos ocidentais exemplificados pela localização de nações budistas no terreno da Exposição Mundial de 1893 em Chicago, cujos pavilhões encontraramse em uma seção intermediária entre a dos paises “civilizados”, no centro, e a periférica, reservada para paises considerados “primitivos”, especialmente os africanos. Revista de Estudos da Religião REVER ISSN 16771222 PósGraduação em Ciências da Religião PUCSão Paulo