Stud. Kantiana 21 (ago. 2016): 77-92 ISSN impresso 1518-403X ISSN eletrônico: 2317-7462 A dimensão social da epistemologia e da estética de Kant: uma reconstrução para além dos limites do mentalismo [The social dimension of Kant’s epistemology and aesthetics: A reconstruction beyond the limits of mentalism] Francisco Jozivan Guedes de Lima * Universidade Federal de Piauí (Teresina, PI, Brasil) Introdução 1 Este artigo defende a publicidade da razão em Kant e a sua inflexão social como um ponto de validação do conhecimento e dos juízos estéticos. Sem isso, em nível epistemológico as crenças ficam limitadas apenas às categorias do entendimento (Kategorien der Vernunft), o que implicaria um internalismo conceitual; e em nível estético, sem a devida apreciação objetiva e intersubjetiva, os juízos ficariam limitados à fantasia do artista, além de se supor o empobrecimento da própria arte, haja vista o próprio Kant defender a tese que o indivíduo só cria aquilo que é belo porque está em sociedade – imbricação entre estética e sociabilidade. O ponto de partida será um breve diagnóstico remetendo-se às críticas de Brandom e Habermas daquilo que se convencionou chamar de “mentalismo” kantiano, a saber, a tese que a razão kantiana teria ficado presa a padrões autorreferenciados e monológicos das categorias do entendimento. Em seguida, tais críticas serão confrontadas a partir do conceito de “intersubjetividade transcendental” (transzendentale Intersubjektivität) proposto por Johannes Keienburg no seu livro Kant und die Öffentlichkeit der Vernunft, onde o autor argumenta que o aparato transcendental kantiano não tem apenas um caráter subjetivo, * E-mail: jozivan2008guedes@gmail.com 1 Este artigo tem por base precípua os dois primeiros tópicos do terceiro capítulo de minha tese de Doutorado que versou sobre uma reconstrução socionormativa da justiça e da publicidade em Kant defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em janeiro de 2016.