XXVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – B. Horizonte - 2016 Heráclito e a música. Análise do Fragmento 51 MODALIDADE: COMUNICAÇÃO SUBÁREA: MUSICOLOGIA E ESTÉTICA MUSICAL Marcus Mota UnB - mmarcusmotaunb@gmail.com Resumo: Heráclito é normalmente associado a temas abstratos e universalistas. Porém, muitos de seus fragmentos se referem a situações sonoramente orientadas. Entre tais fragmentos, temos um grupo de 'fragmentos musicais', que possuem referências às práticas musicais antigas gregas. O objetivo desta comunicação é explicitar tais referências, de modo esclarecer como som e pensamento se articulam em textos que se organizam como experimentos aurais. Para tanto, será analisado em detalhe o fragmento 51, a partir de dados filológicos e iconográficos. Neste fragmento há o enfoque em cordofones, a partir dos quais se registra uma concepção ondulatória na produção e recepção de sons. Palavras-chave: Heráclito. Fragmentos 51. Lira. Heraclitus and the Music: An Analysis of Fragment 51 Abstract: Heraclitus is usually associated with abstract and universal themes. However, many fragments refer to sound-oriented situations. Among these fragments, we have a group of 'musical' fragments that have references to Ancient Greek musical practice. This paper deals with an explanation of these references, so clarify how sound and thought articulated in texts that are organized as aural experiments. Therefore, it will be analyzed in detail the fragment 51, from philological and iconographic data. In this fragment there is the focus on string instruments, and an ondulatory perspective in the production and reception of sounds. Keywords: Heraclitus. Fragment 51. Lyre. 1. O fragmento 51 O fragmento 51 assim se enuncia: "Não compreendem como o divergente concorda consigo mesmo, harmonia de movimentos contrários, como os do arco e da lira" 1 . A complementariedade entre o arco e lira foi assim interpretada por Platão que, em O Banquete (187a5-6.), afirma 2 : Heráclito quis talvez dizer, já que as palavras não estão bem colocadas, quando ele afirma que o que diverge de si mesmo consigo concorda como a harmonia do arco e da lira'. É totalmente sem sentido falar que a harmonia é divergente ou que deriva da divergência. No entanto, ele pode ter isso em mente: a harmonia foi criada pela arte musical a partir de frequências agudas e graves{ τοῦ ὀξέος καὶ βαρέος} que antes eram divergentes e depois passaram a concordar. Platão explicita que a aproximação entre o arco e a lira se faz em função da arte musical, τῆς µουσικῆς τέχνης , a qual diz respeito a conhecimento de escalas e afinação e performance de instrumentos. Ou seja, há no modo como o arco é manipulado e a lira é tangida algo que se efetiva em movimentos opostos complementares. Arco e lira são aproximados em função de sons e movimentos, dos modos como sons e movimentos são produzidos. A 'harmonia' aqui situa-se dentro dessa co-presença de referências contrapostas especificamente relacionadas à arte musical.