Linguagem e sentidos da subjetividade humana em narrativas da cultura urbana: uma análise aos autocolantes usados nos carros Felipe Gustsack & Sandra Maria de Castro Rocha Resumo Neste texto problematizamos a prática cultural do ato do próprio sujeito se narrar no contexto urbano, partindo de conceções sobre a linguagem, as tecnologias urbanas e as narra- tivas realizadas nas interações da vida quotidiana. Apresentamos uma análise das observações recolhidas numa investigação realizada na cidade de Santa Maria – RS – BR, envolvendo recolha e análise de imagens e conversas com condutores de veículos e leitores dos autocolantes de carros, popularmente conhecidos como ‘stickers da família feliz’. Entre outras conclusões, verii- camos que os autocolantes da “família feliz”, colocados estrategicamente nos parachoques dos carros, instigam vários processos de signiicação elucidativos de formas individuais e coletivas de narrativa auto e hétero identitária, em contexto urbano. Palavras-chave Linguagem; cultura urbana; narrativa; família Introdução Desde os tempos em que as paredes das cavernas serviam para registar mitos, leis e demais acontecimentos, existem narradores e, consequentemente, leitores e in- terpretadores que encontram em meios e materiais diversos, a possibilidade de serem interpretados pelos componentes das suas culturas. Nas palavras de Barthes, sob quase ininitas formas, “a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há em parte alguma povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos huma- nos têm suas narrativas, e, frequentemente, estas narrativas são apreciadas em comum por homens de culturas diferentes, e mesmo opostas” (Barthes, 2008, p. 19). As cultu- ras que deixaram legados estruturantes para as sociedades futuras. A história documenta que cada cultura encontra, através dos recursos e objetos que domina, a sua forma de narrar-se e, assim, perpetuar-se ao longo dos tempos. Acon- tece assim desde o tempo em que as paredes das cavernas serviam para registar acon- tecimentos marcantes das comunidades, até aos nossos dias. Identiicamos narrativas marcadas por diferentes culturas como a dos egípcios, os feitos faraónicos contados em papiros, os baixos-relevos, as pinturas, assim como as tapeçarias, os mosaicos e iluminuras, através das quais os cristãos medievos contavam suas histórias. Ora, es- tas formas de narração encontram paralelo em vários fenómenos hodiernos, como os que quotidianamente nos surgem narrados nas traseiras dos carros e que marcam as Comunicação e Sociedade, vol. 28, 2015, pp. 149 – 167 doi: http://dx.doi.org/10.17231/comsoc.28(2015).2275