Alimentação Humana 29 2006 · Volume 12 · Nº 1 DOENÇA CELÍACA E ALEITAMENTO MATERNO: EVIDÊN- CIAS EPIDEMIOLÓGICAS Pereira F I , Ferreira AC I , Tavares M II , Canedo P I , Costa A I , Figueiredo C I,III , Trindade E II , Carneiro F I,II,III , Machado JC I,III , de Almeida MDV IV , Amil J II,III I Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto – IPA- TIMUP. II Hospital de S.João, Porto. III Faculdade de Medicina da Universidade de Porto. IV Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Correspondência: Fábio Pereira IPATIMUP Rua Dr. Roberto Frias, s/n 4200-465 Porto e-mail: fabiop@ipatimup.pt Resumo A Doença Celíaca (DC) é uma doença inflamatória intestinal cuja etiologia é multifactorial e ainda não totalmente compreendida. De facto, além da conhecida associação da doença à exposição ao glúten, a importância da susceptibilidade genética é uma evidência crescente, embora muitos dos genes envolvidos estejam ainda por identificar. A tradução da doença no intestino delgado, como a atrofia vilositária e a consequente redução da superfície de absorção da mucosa, são estritamente dependentes da exposição ao glúten proveniente da alimentação. Contudo, outros factores ambientais podem influenciar a patogénese imuno-mediada subjacente à DC. O padrão alimentar na infância, a quantidade de glúten introduzido, os métodos de preparação dos alimentos e a presença concomitante do aleitamento materno parecem ter uma especial importância. É do interesse do Nutricionista estar informado sobre as mais recentes descobertas nesta área, a fim de oferecer o melhor aconselhamento possível na sua prática profissional. Palavras-chave Doença celíaca, aleitamento materno, alimentação infantil, glúten. Abstract Introduction - Celiac Disease (DC) is an intestinal inflammatory disease which etiopathogeny is not fully understood. It has a complex multifactorial etiology, involving environmental and genetic factors, althou- gh not all involved genes have yet been identified. The expression of the disease process in jejunum has its major manifestations through villous shortening and flattening of the mucosa that lead to a malabsorption syndrome and these pathologic changes are strictly dependent on dietary exposure to gluten. However, other environmental factors might influence the immune-mediated pathogenesis underlying CD. Infant diet patterns, the amount of ingested gluten, the process of food preparation and the simultaneous presen- ce of breastfeeding, seem to be of special importance. It is of interest for Nutrition professionals to be infor- med of the recent advances in this field, in order to allow the best counseling in their professional practice. Keywords Celiac disease, breast-feeding, infant diet, gluten. 1. INTRODUÇÃO A Doença Celíaca (DC) é uma doença inflamatória complexa cuja etiologia é multifactorial, em que factores genéticos e ambientais concorrem conjuntamente na sua patogénese 1,2 . Em indivíduos susceptíveis, a in- gestão de uma ou várias das proteínas encontradas no trigo (gliadinas), cevada (hordeínas) e centeio (seca- linas), desencadeia uma resposta imunológica que resulta na infiltração da mucosa intestinal por linfócitos intra-epiteliais CD8+ e linfócitos da lâmina própria CD4+ 3 . Esta hiperexpressão linfocitária traduz-se em hiperplasia das criptas, atrofia das vilosidades e consequente redução da superfície de absorção da mucosa 2,3,4 e num quadro clínico de má-absorção. A doença celíaca apresenta-se em geral sob 3 formas: a sintomática, a assintomática (ou silenciosa) e a laten- te. A forma sintomática da doença (forma clássica) é comummente diagnosticada na infância e caracteriza-se por diarreia crónica, anorexia, distensão abdominal e anemia carencial refractária à administração de ferro. Este distúrbio sustentado cronicamente leva a um atraso no crescimento estaturo-ponderal e perturbações no desenvolvimento psico-motor. A longo prazo desenvolvem-se um conjunto de complicações sistémicas como sejam a osteoporose, a hepatite crónica, manifestações auto-imunes noutros órgãos e um risco acres- cido de desenvolvimento de linfoma 6 . A forma silenciosa não se apresenta com sintomatologia exuberante