          A Guerra de Canudos e a construção discursiva euclidiana Alice Baroni Resumo: O artigo se propõe a interpretar a construção do discurso do verdadeiro no acontecimento a Guerra de Canudos, a partir da obra Os sertões, de Euclides da Cunha. Para enriquecer a pesquisa, as reportagens escritas por Cunha, enquanto correspondente pelo jornal O Estado de S. Paulo, também serão analisadas. Utilizamos ao longo do texto a expressão “efeitos de verdade”, que é uma expressão do filósofo francês Michel Foucault que diz respeito aos discursos não serem em si nem falsos nem verdadeiros. Em Os sertões, os efeitos de verdade surgem através das relações estratégicas e de poder entre a igreja católica, os senhores das terras, os políticos e um Brasil do litoral desconhecedor do Brasil dos sertões, no acontecimento a Guerra de Canudos. Palavras Chave: Discurso, poder, verdade. Abstract: This article sets out to interpret the construction of truth discourse in the War of Canudos, through the classic Os sertões, by Euclides da Cunha. To enrich the research, the articles wrote by Cunha, while he was a war correspondent for the O Estado de S. Paulo newspaper, will be analyzed, too. Along with the text, the expression “truth-effects” designed by French philosopher Michel Foucault is being used. “Effects of truth” is an expression in reference to the idea of discourses being neither true nor false. In Os sertões, the effects of truth emerge from strategic power disputes amongst the Church, landowners, politicians and a seaside ruling elite that ignores the reality of the poor and forsaken hinterlands. Keywords: Discourse, power, truth. Euclides da Cunha publicou dois artigos com o nome A nossa Vendéia (1). O primeiro em 14 de março de 1897 e o segundo em 17 de julho do mesmo ano, ambos publicados no jornal O Estado de S. Paulo. O artigo de 14 de março foi publicado logo após a assombrosa notícia enviada da Bahia da derrocada da 3ª expedição e morte do general Moreira César. “Os artigos estabelecem uma comparação que ficaria célebre e seria muito utilizada por todos, ao equiparar o levante na Bahia com aquele de caráter religioso e contrarrevolucionário coligando camponeses e nobres em reação à Revolução Francesa” (GALVÃO, 2000: 11). No primeiro artigo, Euclides da Cunha escreve sobre a região do Vale do Ipiranga, conhecida também como Vaza Barris, lugar de instalação do arraial canudense. Escreve sobre o solo, a vegetação e o clima. O que é interessante, no entanto, de se observar nesse primeiro artigo são os primeiros indícios de uma tentativa de compreensão, de construção, do que venha a ser o sertanejo, de sua imbricada relação com a terra. A terra, nesse artigo, já desponta como protagonista da luta. O projeto euclidiano, que apresenta o consórcio entre a arte e a ciência, já dá mostras nesse primeiro momento. Pois não há a cisão entre o homem e a natureza, ao