Fonte: Carvalho, A. (2016). Vozes à Solta. Narrativas da Escola. Porto: Afrontamento, pp. 159-166 UMA PEDAGOGIA DA COMPAIXÃO José Matias Alves Tal como relata Habermas, pouco antes do octogésimo aniversário de Marcuse, os dois interrogavam-se sobre como explicar a base normativa da teoria crítica. Marcuse só deu a resposta dois dias antes da sua morte: «Vês? - disse a Habermas - agora sei em que é que se fundamentam os nossos juízos mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros». Para os teóricos da escola de Frankfurt, a piedade e a compaixão constituíram a arma da crítica. As profundas marcas que neles tinham deixado os mártires dos campos de concentração tornavam-nos especialmente sensíveis à injustiça e à dor [Miguel Santos Guerra, Entre Bastidores]. Eu proponho, portanto, que o homem seja definido como uma nova espécie: o homo compassivus. Àqueles a quem falta a compaixão falta também a qualidade de humanidade. Não são meus irmãos [Rubem Alves, Gaiolas ou Asas]. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente a autora destas histórias que se organizam em torno dos processos de escolarização. De ser seu amigo. E de ser agora um autor comovido que escreve tendo como pretexto os fios que nos trazem a vida na sua múltiplas realidades. Organizo a minha leitura a partir de sete categorias analíticas que penso pode- rem ler a generalidade destes textos: o mundo da vida aprisionado pela lógica surda e absurda dos sistemas; os laços que é preciso tecer para que as aprendi- zagens sejam possíveis; o outro lado da escola, ora sombrio ora solar; as pessoas dos alunos e dos professores com as suas irreduveis singularidades; a hipocri- sia de um sistema enclausurado na estupidez do faz de conta; e, por fim, algumas palavras sobre o olhar do sujeito que escreve: sobre os temas que escolhe, as personagens que convoca e expõe, as narrativas que narra, o estilo que adota, I59