ETNOGRAFIA E HISTÓRIA NO MOCAMBO: NOTAS SOBRE UMA “SITUAÇÃO DE PERÍCIA” JOSÉ MAURÍCIO ARRUTI * Situação de perícia e ironia antropológica A comunidade de Mocambo (Porto da Folha/SE) possui 150 famílias distribuídas por dois pequenos núcleos residenciais, localizados nas extremidades de uma tira de terras que começa na beira do rio São Francisco e se estende até cerca de uma légua, com pouco mais de um terço de légua de largura. Tais famílias estão na posse dessas terras há várias gerações, sob diferentes estatutos, somando no mínimo 150 anos. Em 1992, porém, uma família de proprietários e políticos bastante tradicional naquele município, os Brito, iniciou a ação de despejo daquelas famílias, submetendo-as a constrangimentos e violências quase diários, operados por força armada conjunta de jagunços e soldados da delegacia de Porto da Folha (SE) ou de Pão de Açúcar (AL). Em função dessas violências, a população do Mocambo começou uma mobilização política na qual, inicialmente, apresentou uma demanda por direitos trabalhistas, mais tarde transformada em reivindicação pela posse da terra e, finalmente, em reivindicação pelo seu reconhecimento como remanescente de quilombos. A área reivindicada pelas famílias do Mocambo é fronteiriça à área dos índios Xocó, com os quais mantêm relações de parentesco, trocam dias de trabalho, partilham as cerimônias católicas e – até os anos de 1950 – o mesmo cemitério, localizado na área indígena. O próprio conflito do Mocambo teve início no ano seguinte ao que, depois de um processo extremamente conflituoso, os Xocó conseguiram a demarcação de suas terras, contra a pretensão de propriedade da mesma família Brito. O conflito entre os Xocó e os Brito teve início no final dos anos de 1970, com intensa participação da equipe de missionários da diocese de Propriá (SE), sucedidos pelos * Para citar este artigo: ARRUTI, J. M. “Etnografia, história e memória no Mocambo: notas sobre uma situação de perícia”. In: Ilka Boaventura Leite. (Org.). Laudos periciais antropológicos em debate. 1ed.Florianópolis: Coedição NUER/ABA, 2005, v. , p. 113-136.