1 Cem anos depois: a Academia Nacional de Belas-Artes. Contextos, protagonistas, ações (1932-1974)* Joana Baião Doutora em História da Arte – Especialização em Museologia e Património Artístico, IHA, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal * Texto originalmente publicado in Colecções de arte em Portugal e Brasil nos séculos XIX e XX (coord. Maria João Neto e Marize Malta). Lisboa: Caleidoscópio, 2016, pp. 55-67. Esta versão foi revista e ilustrada. RESUMO: Em 1932, quase cem anos após as movimentações que deram origem às Academias de Belas-Artes de Lisboa e do Porto – instituídas em 1836 e extintas formalmente em 1911 pelo regime republicano –, foi criada a Academia Nacional de Belas- Artes (ANBA). Nesta comunicação propomos evocar a história da ANBA entre 1932 e 1974, período coincidente com a vigência do Estado Novo e durante o qual foram seus presidentes José de Figueiredo (1932-1937), Reinaldo dos Santos (1937-1967) e Raul Lino (1937-1974). São elencadas as principais iniciativas em prol da divulgação e defesa da arte nacional, nomeadamente as Missões Estéticas de Férias e a elaboração do inventário artístico nacional. PALAVRAS-CHAVE: Academia Nacional de Belas-Artes; Estado Novo; Missões Estéticas de Férias; Inventário Artístico de Portugal. A (re)fundação da Academia Nacional de Belas-Artes, 1932 Breve contextualização Em 5 de março de 1932 foi publicado o decreto n.º 20.977, que institui a Academia Nacional de Belas-Artes (ANBA), herdeira simbólica das antigas Academias de Belas-Artes de Lisboa e do Porto fundadas pelo Liberalismo em 1836 e dos Conselhos de Arte e Arqueologia que as substituíram em 1911, logo após a implantação da República. A (re)fundação da ANBA foi impulsionada pelo ministro da Instrução Pública, Gustavo Cordeiro Ramos, que na sessão solene de inauguração da nova instituição referir-se-ia a ela como «o primeiro órgão dirigente e criador da alta cultura artística nacional (RAMOS [1] 1934, 43). Contudo, é José de Figueiredo, primeiro presidente da ANBA, quem várias vezes surge mencionado como «o verdadeiro artífice da restauração da Academia (…), embora ele o tenha negado, não só por espírito de coerência, pois fora o propulsor dos extintos Conselhos de Arte e Arqueologia, mas também e sobretudo em louvável atitude de modéstia» (PAMPLONA [2] 1980, 48. A breve introdução ao diploma instituidor da ANBA esclarece o objetivo que presidia à sua fundação: contrariar a «crise de orientação» que marcava, então, o panorama artístico português (Decreto n.º 20.977. Diário do Governo, 5 mar. 1932, 419), crise essa