Transformatórios: laboratórios de transformação da matéria Felipe Schmidt Fonseca Resumo Este projeto de pesquisa tem por objetivo investigar a potencial aproximação entre, de um lado, a cultura maker e as ferramentas acessíveis de fabricação digital presentes nos espaços makers, hackers e FabLabs; e de outro aqueles campos ligados tanto aos consertos, adaptações, personalização e customização, quanto à produção artesanal e em pequena escala. Sugere-se que estes diferentes campos têm em comum a atuação direta com a transformação de matéria. Propõe-se então a imagem do transformatório – laboratório de transformação de matéria - como eixo de articulação ao qual possam confluir as práticas da fabricação digital, dos consertos e do artesanato. A intenção subjacente do projeto é investigar o potencial dos transformatórios enquanto espaços dedicados ao aprendizado entre pares e à criatividade aplicada. Por fim, o projeto pretende oferecer recomendações para a elaboração de políticas públicas de incentivo à inovação sustentável, cidadã e socialmente relevante em diálogo com os transformatórios e a transformação de matéria. Introdução Ao longo da última década, uma quantidade crescente de iniciativas no mundo inteiro tem se dedicado a desenvolver diferentes formatos de atuação baseados na adoção das chamadas tecnologias e metodologias de fabricação digital 1 . De início, a tais tecnologias atribuía-se o potencial de democratizar e distribuir a capacidade de produzir inovações socialmente relevantes. Como sugeriu Neil Gershenfeld, professor do MIT considerado um dos principais promotores da rede de laboratórios de fabricação digital (FabLabs): “A verdadeira oportunidade é a de se agregar a força inventiva do mundo para que localmente se desenhem e produzam soluções para os problemas locais” (GERSHENFELD, 2007). Este discurso e suas variações igualmente otimistas foram amplamente repercutidos pela mídia especializada em 1 Tecnologias de fabricação digital são um conjunto de equipamentos que permitem a produção ou modificação de objetos físicos a partir de matrizes digitais, e vice-versa. Alguns exemplos destes equipamentos são a impressora 3D, as fresadoras digitais, as cortadoras laser, os scanners 3D, entre outros. Frequentemente relacionam-se a metodologias colaborativas oriundas principalmente do desenvolvimento de software como a produção ágil, a prototipagem rápida, os sprints, hackathons e desconferências, entre outras. 1