CATEGORIAS DE ACUSAÇÃO E CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO Notas sobre manipulações da identidade e fronteiras móveis (Capítulo publicado no livro: ANDRADE, Péricles (org.). Polifonia do Sagrado: pesquisa em Ciências da Religião no Brasil. São Cristóvão: Editora UFS, 2015, p. 31-40) Emerson José Sena da Silveira 1 Toda nova fé começa com uma heresia. Raymond Aron Desejo, com este texto, introduzir reflexões sobre algumas ideias nascidas em torno de lembranças que guardo em minha memória, mas nascidas também em torno de tantas leituras dos clássicos e contemporâneos das ciências sociais e da religião. O foco principal serão as categorias de acusação entre e dentro de grupamentos religiosos, em especial, evangélicos e afro-brasileiros. Criado nas franjas de uma religiosidade popular com porosidades para outros sistemas religiosos, eu cresci olhando, com afetos e desafetos, as mudanças que paulatinamente transformaram a face e a estrutura do campo religioso brasileiro. Nos albores das décadas de 1980, com os videogames da Atari, os engradados de vidro da Coca-Cola, os carrinhos de rolimã improvisados, eu via, por entre frestas e flashes, os atores, grupos e semânticas mudarem de posição, de ênfase, de forma, de estrutura e de sentido. Vim de uma família católica tradicional, com mãe e tios devotos aos santos e aos sacramentos católicos (mas nem tanto), um pai cético, após experiências traumáticas em internatos católicos do interior de Minas Gerais, e muitas vivências religiosas. Católicos, kardecistas, umbandistas, evangélicos e outras religiosidades me veem à memória em pequenos microcosmos de relações densas. São repercussões de macro-contextos socioculturais, móveis e moventes, ao longo do tempo. Duas décadas depois, a ascensão dos evangélicos, com maior ênfase dos pentecostalismos – uma das mais evidentes movimentações sociorreligiosas estudada à 1 Antropólogo, mestre e doutor em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professor do Departamento e no Programa em Ciência da Religião (PPCIR), UFJF. E-mail: emerson.pesquisa@gmail.com