QUANDO O ARMÁRIO É NA ALDEIA: COLONIALIDADE E NORMALIZAÇÃO DAS SEXUALIDADES INDÍGENAS NO BRASIL Estêvão Rafael Fernandes 1 Há algum tempo pretendo escrever sobre meu tema de pesquisa tendo espaço e liberdade suficientes para sistematizar, de forma mais ou menos descompromissada, várias das angústias que surgiram desde que comecei a trabalhar com a temática “homossexualidade indígena”. Escrevo este texto me dando, como desafio, elaborar essas reflexões sem entulhar este texto de citações e referências, mas como uma conversa. É um texto, espero, que possa ser lido em um ônibus, ou em um desses momentos de insônia, sem maiores obrigações para com o autor. Busco, assim, fazer um texto acadêmico completamente não-acadêmico, no espírito de várias provocações que se seguem. A pergunta norteadora deste trabalho vai ao encontro daquela, repetida tantas vezes por colegas, sempre que apresento meu tema de pesquisa: afinal, existe isso de índio gay? Vejamos. O que se sabe é que na literatura sobre o Brasil, desde seu descobrimento, há inúmeras referências por parte de cronistas e missionários de práticas “sodomíticas” entre os indígenas brasileiros. É importante mencionar, neste caso, uma particularidade das fontes quinhentistas e seiscentistas sobre o Brasil: ao contrário dos inúmeros textos escritos sobre a América espanhola, a América portuguesa não teve tanto destaque entre os autores lusitanos. Aos nossos colonizadores interessava muito mais o oriente, suas riquezas e sua estrutura social cuja complexidade e 1 Antropólogo. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Rondônia. Doutor em Ciências Sociais (Estudos Comparados sobre as Américas) pelo Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas da Universidade de Brasília (Ceppac/UnB). Contato: estevaofernandes@gmail.com