ISSN: 2179-9938 REVISTA PASSAGENS - Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará Volume 7. Número 2. Ano 2016. Páginas 39-56. 39 PASOLINI E A LÍNGUA DA POESIA PASOLINI AND THE LANGUAGE OF POETRY Eduardo Sterzi Universidade de Campinas (Unicamp) RESUMO: Pasolini pratica a poesia quando é poeta, faz romance, no cinema, com o teatro ou como ensaísta. Uma obra de poeta, em estado de crise. Origem e vertigem, ordem e voragem: elemento dialético, configurador e reconfigurador, que não se restringe ao plano estritamente linguístico, embora acabe desvelando um germe de língua (um grão, um veneno) em tudo que toca. Palavras-chave: Pasolini; poeta; crise. ABSTRACT: Pasolini practices poetry when he is a poet, makes novel, in the cinema, with the theater or as an essayist. A work of poet, in a state of crisis. Origin and vertigo, order and voracity: dialectical element, configurator and reconfigurator, which is not restricted to a purely linguistic level, although it ends up unveiling a germ of language (a grain, a poison) in everything it touches. Keywords: Pasolini; poet; crisis. você citava poetas húngaros mas nesse tempo eu só queria saber de inventar uma língua que não existisse. (Matilde Campilho, «Fur», in Jóquei, Lisboa: Tinta-da-China, 2014, p. 7) No princípio estava – e está – a poesia. Pasolini começa poeta, com a publicação de Poesie a Casarsa, seu primeiro livro, em 1942, e permanece poeta até sua morte em 1975. Não apenas continuou praticando a poesia enquanto também se dedicava ao romance, ao cinema, ao teatro, ao ensaísmo: ao longo de todo seu percurso, fez da poesia uma espécie de elemento a um só tempo incoativo e inquietante de todas as demais formas e meios de expressão. Com razão, Fernando Bandini assinalou no conjunto de sua obra uma «perene tendência à poesia» (perenne tensione verso la poesia), uma «vontade poética ininterrupta e omni-inclusiva». 1 A poesia é – para Pasolini, em Pasolini – origem e vertigem, ordem e voragem: elemento dialético, configurador e reconfigurador, que não se restringe ao plano estritamente 1 FeƌŶaŶdo BaŶdiŶi, «Il sogŶo di uŶa Đosa Đhiaŵata poesia», iŶ Pieƌ Paolo PasoliŶi, Tutte le poesie, I, p. XV.