PGIE-UFRGS fnfonnática na Educação: Teoria & Prática O MÚTUO ENGENDRAMENTO SUJEITO/MEIO: fronteiras complexas Simone Moschen Rickes• Cleci Maraschin .. Resumo: Num dialogo com autores como Jean Piaget. Humberto Maturana e Francisco Vareta. o texto propõem Q<>e o estabete.:::imento cJo ser pensante como uma uniaaele que se aiferencia do meio é uma construção Sêml)re em marcna quG inscl'éve a fronteira entre o sujeito cognitivo e o Que seria seu meio em coordenadas que variam no transcurso da história desse sujeito. Concebe tal inscrição como efeito do operar de categorias em aparente contradiç<1io. corno são os mecanismos de fechamento e oe aber- tura. ou de integração e de diferenCiação que caracteriZam o sistema cognitivo em sua retção ao meio. O exame da relação autor /leitor aponta para a possibilidade de concebê-la como ponto de vislb!lidade das relações. tais como propostas neste texto, entre o sujeito e sua e>Cieriolidade. Palavras chave: epistemologia genética; autopotese; escrita; função autor Abstract: In a dialogue with aulhors like Jean Piagel, Humberto Maturana and Francisco Vareta. ll1e lext proposes that tne estabtishment of the lhinking being as a unit thal is diSiinct from lhe enllironmentls a conslruction atways on lhe march d1at ir,scribes lhe border between lhe subjec! and what wou!d be its environmen! in coordinates lha! vary during this subject history. Concepts this inscription as the effect Qf lhe operation of apparenlly cont<adictary categorias, as lhe mechanisrns of closíng and opening. ar of integration anó dislinction, lhBt SN1 characlllrislic oi the cognitiva system in its relation lo lhe environ- ment. The exsm of the .-elalion aulhor/reeóer points to lhe possibility oi ooncepting it as a point of visíbility of the retatíons, as they proposeo in this text, between ttle subject and its exteriority. Key-words: Genetic Epistemology, Autopoiese. Wriling, Author Function 1. Uma pergunta sobre as fronteiras ·auando um espaço se divide em dois. nasce um universo: define-se uma unidade. A descrição, a invenção, a manipulação de unidades eslão M base de toda indagaçao cientlfica." (Maturana & Varela, 1997. p. 64) A$ palavras de Maturana e Varela abrem um campo de interrogações acerca dos processos que devem entrar em jogo para que um espaço se diVida em dois. pois, se fazemos dialogar Piaget com a formulação acima, logo veremos que a própria produção de uma unidade, quando esta se define enquanto sujeito do conhecimento, é fruto de operações cujo ínlcio podemos situar miticamente e cujo fim coincidirá com a morte. Assim, aquilo que a partir do senso comum poderíamos tomar como ponto de partida da trajetória do sujeito, a saber, que ele se distingue numa unidade que se põem em relação com o mundo, é também isso uma construção. Ou seja, tal unidade não é uma constante na equação da constituição do homem enquanto sujeito cognitivo. mas uma variável que assumirá valores diversos no transcurso da vida, valores que, por sua vez. expressam-se em coordenadas sempre mutantes de fronteira entre o sujeito e o mundo. Mesmo que possa- mos falar <1e uma unidade que se distinguiu no espaço como um lugar, em cena medida fechado, que faz fronteira com um meio, mesmo assim, essa unidade não aparecerá como um ponto completamente estabele- cido de chega<la na construção do sujeito do conhecimento, mas como um processo sempre posto em marcha. Processo este que se confunde com a própria história do sujeito. Este texto pretende problematizar a construção das fronteiras entre aquilo que seria próprio do eu. do sujeito, ou ainda, dizendo de outra forma, de uma unidade, e aquilo que se constitui como campo de exterioridade, como objeto, ou então, meio. Quer-se problematizar a divisão de um espaço que institui uma unidade e um meio como princípio de todos os questionamentos da ciência, nas palavras de Maturana e Varela, colocando a inscrição da fronteira que tal divisão acarreta no centro das interrogações acerca da constituição do·sujeito. A história do sujeito cognitivo não seria também a história das diversas coordenadas que esta fronteira pode, no transcurso do tempo, ocupar? Psicóloga, psicanalista, Mestre -em Educação {UFRGS), OoutoraMa em Eelucação (UFRGSi. membro da equipe da Clínica de Aten- dimento Psicológico da UFRGS. sri<*ss@pro via·r& ccxn.m_ Psicóloga. Doutora em Educação. Professora do Instituto de Psioo!ogia da Ufrgs e do Pós1Jraduação em Psicologia Social alnstitucionat da ur,gs. V. 3 N• 1, Setembro. 2000 ------------------------- 35