66 3 2[2006 revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo programa de pós-graduação do departamento de arquitetura e urbanismo eesc-usp r sco Crise urbana em Natal na virada para os anos 1920: impasses da modernização e saberes técnicos 1 Resumo Este artigo discute o contexto e as representações de “crise” urbana que foram formuladas sobre Natal na virada para os anos 1920. Esse é o ponto de partida para problematizar as propostas e ações anteriores de transformação da cidade, centradas principalmente na questão da salubridade urbana, e para compreender a rearticulação do “projeto” de modernização que seria empreendido na década em questão e no qual a ascensão do saber técnico, do médico e do engenheiro, foi fundamental. Palavras-chave: Natal – “crise” e modernização urbana – representações A George Alexandre Ferreira Dantas Arquiteto e Urbanista, doutorando do Programa de Pós-Gradua- ção em Arquitetura e Urbanismo da EESC/USP, Av. Trabalhador Sancarlense, 400, Centro, CEP 13566-590, São Carlos, SP, e-mail: georgeafdantas@hotmail.com artigos e ensaios afirmação de um clima benfazejo, que se impunha aos males dos homens, às suas “orgias de mil pecados, sem remissão e sem remédio”, é central na leitura que o médico Januário Cicco fez sobre Natal e as endemias e epidemias que vicejavam em seu espaço urbano. Retomando alguns elementos constitutivos da medicina social e da discussão higienista e sanitarista sobre as cidades, Cicco inscrevia-se assim nos meandros de uma disputa que buscava justificar e legitimar o saber, os discursos e as práticas de um conjunto de intelectuais e profissionais – principalmente médicos e engenheiros – que secundaram ou mesmo lideraram, imiscuídos na estrutura de poder da República Velha, a busca deste tema obsessivo para a época: o progresso 2 (Telles, 1999; Bresciani, 1998; Herschmann, 1994). Natal é a cidade mais saudável do Norte do Brasil. À margem do oceano e cercada por montanhas de areia ou dunas, cobertas de exuberante vegetação, é batida pelo vento leste-sudeste constante e moderado, trazendo à cidade as riquezas de um ar marinho, leve, puro e tonificador. De clima temperado, a sua temperatura não excede de 32º à sombra (Cicco, 1920, p.07). Assim Januário Cicco, formado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1906, iniciava a sua topografia e geografia médicas sobre Natal, publicadas em seu livro “Como se Hygienizaria Natal”, de 1920. Ocupando alguns dos principais cargos da área da saúde na cidade nesse período – era Inspetor da Saúde do Porto, chefe das clínicas do Hospital de Caridade Jovino Barreto e médico da Empresa Tração, Força e Luz (ETFL) –, Cicco transitava por diversas áreas e esferas de governo e poder que lhe permitiam uma visão abrangente da cidade, diretamente ligada às questões que hoje poderiam ser chamadas urbanas. Vinculando diretamente a problemática da saúde pública às reformas urbanas e, conseqüentemente, a um projeto de modernização social e econômica, a descrição, a narrativa e o diagnóstico construídos pelo médico Januário Cicco estabelecem, para o pesquisador atual, um importante documento sobre a cidade de Natal na virada para os anos 1920. 1 Este artigo é uma versão reduzida e revisada do capí- tulo 1 da dissertação de mestrado intitulada “Linhas convulsas e tortuosas retifica- ções: transformações urba- nas em Natal nos anos 1920”, defendida em outu- bro de 2003 no Programa de Pós-Graduação da EESC- USP, sob orientação do Prof. Dr. Carlos Roberto Monteiro de Andrade; a bolsa de mestrado da FAPESP (proces- so n.º 99/03345-0) foi funda- mental para o desenvolvimen- to dessa dissertação. 2 A professora Otília Arantes lembra que, “em país depen- dente e de capitalismo peri- férico, o moderno é uma ob- sessão nacional, entendido via de regra como esforço de atualização, sendo o metro a evolução das sociedades cen- trais. Modernizar-se – dos hábitos de consumo até os sentimentos estéticos – era condição de formação nacio- nal, redenção do passado colonial etc” (1998, p.37).