DOSSIÊ Memórias e sociabilidades em torno dos quadrinhos no Brasil dos anos 1960* Ivan Lima Gomes** Introdução Entre 1961 e 1964, uma cooperativa de artistas localizada no Rio Grande do Sul procurou difundir a produção brasileira de histórias em quadrinhos (HQs). Ela se posicionava de forma crítica em relação à pene- tração de comics norte-americanos no país. Por um lado, uma “substituição de importações” que deveria ser promovida a partir de iniciativa estatal, por meio de leis de proteção ao mercado nacional; por outro, a publicação de material próprio, a partir de temas ligados à cultura brasileira. Fruto de debates intensiicados em torno da nacionalização dos qua- drinhos – iniciados nos meses em que Jânio Quadros ocupou a presidência do Brasil – e apoiada pelo governo Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, a Cooperativa Editora e de Trabalho de Porto Alegre (CETPA) reuniu artistas do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul e representou a síntese de um importante momento da história das HQs no Brasil. Até ali, diversos nomes da imprensa e dos quadrinhos vinham se engajando publicamente na defesa de uma produção nacional. Associações de desenhistas surgiam na * O artigo é uma versão adaptada do quarto capítulo da tese de doutorado Os sentidos dos quadrinhos em contexto nacional-popular (Brasil e Chile, anos 1960-1970), defendida no PPGH-UFF em 2015, sob a orientação do prof. Dr. Paulo Knauss e com auxílio do CNPq. ** Doutor em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Teoria e Metodologia da História na Universidade Estadual de Goiás (UEG). E-mail: igomes2@gmail.com.