ϵ De Zurara a Francis Bacon: Conhecimento e poder, ciência e tecnologia - ou sobre as primícias do plano estratégico de domínio do globo * Onésimo Teotónio Almeida Brown University Vai já para duas décadas publiquei um ensaio sobre a cooperação entre D. João de Castro e Pedro Nunes procurando demonstrar que o empenhamento de D. João de Castro na melhoria da qualidade dos dados de observação recolhidos tinha motivos práticos imediatos. Esse dado, óbvio para quem está familiarizado com os problemas científicos e tecnológicos das navegações portuguesas não contém em si nenhuma novidade. Representava, na altura da escrita desse ensaio, e no contexto dos debates de então, um contra-exemplo importante, uma vez que a visão recebida na historiografia anglo-americana era a da ciência moderna, surgida no século XVII ter estado desvinculada de qualquer aplicação prática até ao século seguinte 1 . Era pelo menos essa a perspectiva dominante desde o surgimento do hoje clássico estudo de Robert K. Merton, Science, Technology & Society in Seventeenth Century England 2 . Na verdade, no caso português, uma ligação imediata entre o conhecimento da natureza e a aplicação prática desse conhecimento ocorre a dois níveis e por razões distintas mas inter- relacionadas: por um lado, importava aperfeiçoar a recolha de dados sobre a natureza porque, quanto mais exactas fossem as observações e medições, mais vidas seriam salvas no trânsito marítimo, menos problemas surgiriam nos percursos e mais eficientes as viagens se tornariam. Por outro, havia que observar e registar os problemas surgidos com os próprios instrumentos de medição, a fim de, em Lisboa, Pedro Nunes trabalhar com os seus fabricantes e poder aperfeiçoá-los, pois isso permitiria por sua vez melhorar a recolha de dados observados em viagens futuras. Os exemplos são inúmeros em qualquer dos Roteiros de D. João de Castro. São de particular interesse as passagens em que o autor abre longos parênteses no registo da actividade diária (cada entrada é * Agradeço a Artur Goulart, Urbano Bettencourt, António da Silva Cordeiro, Olegário Paz, José F. Costa e João Ornelas do Rego a leitura atenta deste texto e as suas preciosas sugestões. 1 "'…fique a dúvida para Pedro Nunes' (D. João de Castro) - sobre a cooperação entre 'cientistas' e navegadores" Oceanos, n 49 (2002), 9-17. 2 (New York: H. Fertig, 1970).