177 >>><<< Munus e communitas A identidade negociada e a comunidade ausente na modernidade brasileira Ettore Finazzi-Agrò A vossa ambição é querer converter-vos, vós mesmos, em oferendas e presentes. Por isso desejais acumular todas as riquezas em vossas almas. Friedrich Nietzsche, “Da virtude dadivosa”, in: Assim falou Zarathustra. A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível. O que vemos, é apenas milagres, salvo melhor raciocínio. João Guimarães Rosa O ponto de partida poderia ser uma airmação quase trivial, beirando a tautologia. Ou seja, que o caminho da modernidade, no mundo ocidental se apresenta sempre pautado pela procura incessante de um senso comum (ou de um sentido em comum para utilizar uma expressão de Jean-Luc Nancy), 92 no qual e pelo qual instaurar um Nós diferente, um diverso e inédito sujeito coletivo, uma constelação de instâncias compartilhadas. Nessa perspectiva, a construção da comunidade seria o fruto de um trabalho, sempre repetido, de desbravamento do território cultural, ocupado pelos restos de um passado a ser apagado. O objetivo, de fato, é o de chegar a instituir uma clareira, um espaço inalmente livre do amontoado de ruínas deixado atrás de si pelo tempo e pelo anjo da história, para depois cultivar a falsa segurança do surgimento de um Novo 92 NANCY, 1999, p. 210-219.