43 3 2[2006 revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo programa de pós-graduação do departamento de arquitetura e urbanismo eesc-usp r sco Lar e Família: o discurso assistencialista sobre habitação popular nos anos 40 e 50 Resumo Estudando o pensamento e a prática intervencionista dos profissionais de Serviço Social nas décadas de 40 e 50, no que concerne às formas de habitar populares, este trabalho discute o processo de formação do “novo homem” estadonovista. Busca compreender o contexto em que surge o pensamento assistencialista no Brasil, suas relações com o Estado e com o pensamento católico. Por meio dos Trabalhos de Conclusão de Curso defendidos nas escolas de Serviço Social entre 1942 e 1953 e dos Anais do I Congresso Brasileiro de Serviço Social, realizado em 1949, problematiza-se a relação entre moradia e popular e práticas intervencionistas. Palavras-chave: Assistencialismo, habitação popular, Rio de Janeiro U Flávia Brito do Nascimento Arquiteta e historiadora, mestre em História e Teoria da Arquite- tura e do Urbanismo pela EESC-USP, arquiteta do IPHAN-SP, e-mail: flaviabn@terra.com.br. artigos e ensaios m novo homem para um novo país A partir da dinâmica política estadonovista no período pós-1937, as camadas populares, e agora compreendidas como camadas trabalhadoras, adquirem no país um novo status e posição. Se até este momento o povo brasileiro era classificado como pouco afeito ao trabalho e alvo de atuações repressivas, a partir de então passava a ser portador de potencialidades e necessidades, que uma vez atendidas, trariam à tona suas reais virtudes. Estas sempre existiram no âmago de nosso povo, mas permaneceram bem guardadas durante anos, escondendo os valores da nossa nacionalidade. Fazia-se necessário “restaurar” a sociedade brasileira, retirando-a do seu estágio de natureza, isto sendo feito através da organização do poder político. O projeto trabalhista passava a ser implementado com a organização da classe trabalhadora, seja em torno de sindicatos, seja em torno de órgãos vinculados à Igreja, tendo como base a “moderna”, para recorremos a linguajar de época, legislação trabalhista. Esta não era entendida por seus contemporâneos como uma forma de se extinguir a pobreza, mas como a possibilidade de se assegurar uma vida mais digna ao trabalhador, seguindo os preceitos de justiça social. O Estado seria a instância homegeneizadora da sociedade, passando a pautar novas relações com os trabalhadores, sobretudo depois de 1942, [a casa] deve ser o que é para todos – o lugar onde o homem se torna o que é – mas para o proletário deve, também, ser fator educativo: deve, portanto, ser o lugar onde êle se torne o que deve ser. (CUNHA, 1948: 68)