Matoso, Rui. 2016. “Imagem-Operativa/Imagem-Fantasma – A perceção sintética e a industrialização do não-olhar em Harun Farocki”. In Atas do V Encontro Anual da AIM, editado por Sofia Sampaio, Filipe Reis e Gonçalo Mota, 66-78. Lisboa: AIM. ISBN 978-989-98215-4-5. IMAGEM-OPERATIVA/IMAGEM-FANTASMA: A PERCEÇÃO SINTÉTICA E A INDUSTRIALIZAÇÃO DO NÃO-OLHAR EM HARUN FAROCKI Rui Matoso 1 Resumo: Harun Farocki, no seu ensaio intitulado Phantom Images (2004), convoca Roland Barthes (Mitologias) para uma aproximação à distinção entre as duas tipologias de imagens, e entre linguagem-objeto e metalinguagem. A linguagem-objeto é aquela que emerge da relação operacional e transitiva com o objeto - a linguagem do homem produtor-operador-, é por isso uma linguagem operativa que convoca a modulação da ação transformadora no mundo. A metalinguagem constitui-se como imagem-à-disposição, através da qual a mitologia se desenvolve como mediação e narrativa. Esta duplicidade aberta pela técnica é obviamente extensível às tecnologias da visão e do observador, gerando uma outra problemática derivada do modelo ocularcentrico, i.e., da forma como a camera obscura constituiu um paradigma de conhecimento. Neste caso, também o fotógrafo, enquanto funcionário da máquina (Flusser), dirá das suas proezas técnicas enquanto que o observador construirá outros discursos condicionados pela epistemologia. Comparando com os phantom shots do cinema do principio do Séc. XX, vulgarizados nas sequências filmadas em comboios onde a câmara ocupa um lugar inacessível ao olhar humano (desubjetivado), Harun Farocki faz notar que existe hoje uma nova categoria de imagens-fantasma, com propriedades subjetivas traumáticas. Palavras-chave: Imagem-operativa; imagem-fantasma; perceção sintética; industrialização do não-olhar; Harun Farocki. Contato: rui.matoso@gmail.com Aproximação à obra de Harun Farocki Harun Farocki (1944-2014), começou a filmar em 1966. Cresceu em Hamburgo e mudou-se para Berlim Ocidental onde viveu desde o início de 1960. Esteve entre os primeiros estudantes que entraram no Berlin Film & Television Academy (DFFB), mas acabou por ser expulso em 1968 devido a actividades consideradas subversivas. Começou por trabalhar em curtas- metragens para televisão e estabeleceu-se entre 1970 e 1980 como reconhecido cineasta de perfil político através de uma série de obras de longa- metragem, em parte auto-financiadas, como: Zwischen den Kriegen (Between Two Wars, 1978), Etwas wird sichtbar (Before Your Eyes, Vietnam, 1982), Betrogen (Betrayed, 1985) e Wie man sieht (As You See, 1986). 1 Doutorando em Ciências da Comunicação na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.