Comensalidade e cuidado: meninas-jovens-mulheres órfãs no contexto de HIV/Aids * Sueli Aparecida Moreira 1 Ivan França Júnior 2 José Ricardo Ayres 3 Michelle Medeiros 4 MOREIRA, S.A. et al. Commensality and care: orphan girls and young women in the context of HIV/Aids. Interface - Comunic., Saude, Educ., v.16, n.42, p.651-64, jul./set. 2012. “Monopoly of the kitchen” is historically and culturally attributed to women and mothers. To care for their families, they select and buy food, and cook and serve it. They sustain commensality. In contexts of HIV/AIDS, when mothers die, the daughters become responsible for such care. What do the girls think of the caregiver’s role that they prematurely have to face? What do their brothers think about this? Semi-structured interviews were conducted with 14 young orphans. The data were analyzed as proposed by Mills (2009). The young women did not show any dissatisfaction with the new tasks that they were doing, but deplored the fact that this impeded them from studying and having a life beyond the home. Their brothers viewed dealing with the kitchen as women’s business and rarely collaborated. These young women need care directed towards the vulnerable situation in which they live. Public health policies could seek macrostructures that would act on this demand. Keywords: Commensality. Care. Orphanhood. Aids. Young people. O “monopólio da cozinha”, histórica e culturalmente, é atribuído às mulheres, mães. Para cuidar da família, elas elegem alimentos, compram, cozinham e os servem. Sustentam a comensalidade. Em contextos de HIV/Aids, onde há perda da mãe, as filhas tornam-se responsáveis por esses cuidados. O que pensam as meninas do papel de cuidadoras com o qual, prematuramente, deparam-se? O que dizem seus irmãos sobre isso? Realizamos entrevistas semidirigidas com 14 jovens órfãos. Os dados foram analisados pela proposta de Mills (2009). As jovens não demonstram insatisfação por executarem novas tarefas, mas deploram o fato de impedirem o estudo e a vida além-casa. Seus irmãos entendem a lida da cozinha como coisa de mulher e, por isso, dificilmente colaboram. Essas jovens necessitam de cuidados direcionados à situação vulnerável em que vivem. As políticas de Saúde Pública poderiam pleitear macroestruturas que atuassem sobre essa demanda. Palavras-chave: Comensalidade. Cuidado. Crianças órfãs. Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Jovens. * Elaborado com base em Moreira (2009); projeto parcialmente financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP- USP). A autora, bolsista de doutorado do CNPq, foi contemplada com o Prêmio Santander- Banespa de 2007. 1 Departamento de Turismo, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Av. Sen. Salgado Filho, 3000, Lagoa Nova. Natal, RN, Brasil. 59.072-970. suelimoreira@ufrnet.br 2 Departamento de Saúde Materno-Infantil, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP). 3 Departamento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina, USP. 4 Pós-graduanda, Programa de Ciências Sociais, UFRN. v.16, n.42, p.651-64, jul./set. 2012 651 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO artigos