1 Crise estrutural do capitalismo: uma reconstrução conceitual e empírica Eleutério F. S. Prado 1 Introdução O teƌŵo Đƌise estƌutuƌal teŵ sido usado ƌeĐoƌƌeŶteŵeŶte poƌ alguŶs autoƌes que se apresentam como críticos do capitalismo. Por exemplo, Istvan Mészáros, num dos artigos do livro que tem esse termo no título, emprega-o para anunciar a vinda de um período catastrófico na história da humanidade: A Đƌise estƌutuƌal do sisteŵa do Đapital Đoŵo uŵ todo – a qual estamos experimentando nos dias de hoje em uma escala de época está destinada a piorar consideravelmente. Vai se tornar à certa altura muito mais profunda, no sentido de invadir não apenas o mundo das finanças globais mais ou menos parasitárias, mas também todos os domínios da vida social, econôŵiĐa e Đultuƌal (Mészaros, 2011, p. 17). Coŵo se saďe, o teƌŵo Đƌise designa um evento que gera uma situação instável e perigosa no curso da vida de um indivíduo, grupo, comunidade ou sociedade inteira. As crises constituem-se em geral de mudanças abruptas e de sentido interrogativo que interrompem, contrariam e mudam o andamento normal de um sistema complexo. Ora, as crises podem estar associadas tanto aos processos de crescimento quanto aos processos de fenecimento que ocorrem durante o tempo de existência de um sistema complexo. O teƌŵo Đƌise estƌutuƌal, tal como foi empregado por Mészaros, está obviamente ligado ao fenecimento do sistema capitalista, ao fim de sua duração histórica secular e em sua dimensão mundial. É ele próprio quem o qualifica: ;...Ϳ algo de sigŶifiĐativaŵeŶte Ŷovo está oĐoƌƌeŶdo Ŷo sisteŵa eŵ seu conjunto. Sua natureza não pode ser explicada (...) apenas em termos de uma crise cíclica tradicional (...). Tampouco parece plausível atribuir os sintomas identificáveis da crise à assim chamada onda longa. (...) À medida que os sintomas de crise se multiplicam e sua severidade é agravada, parece mais plausível [admitir] que o conjunto do sistema esteja se aproximando de certos limites estruturais do capital (...) ainda que seja excessivamente otimista sugerir que o modo de produção capitalista já atingiu seu poŶto de Ŷão ƌetoƌŶo a ĐaŵiŶho do Đolapso (Mészaros, 2011, p. 41). Ora, trata-se sem dúvidas de uma percepção histórica que não pega inteiramente de surpresa aqueles que leem cotidianamente os jornais e, assim, assustam-se com os avisos ameaçadores dados por um turbilhão de fatos sociais, políticos, ecológicos, etĐ. os Ƌuais paƌeĐeŵ aŶuŶĐiaƌ o fiŵ do ŵuŶdo. Porém, essa percepção cumpre perguntar não seria apenas uma ilusão sinóptica que é criada por um conjunto difuso de notícias desencontradas, sem que elas tenham um fundamento comum no cerne do processo de reprodução da sociedade? O que vem a ser afinal, 1 Professor titular e sênior da FEA/USP. Correio eletrônico: eleuter@usp.br. Blog na internet: http://eleuterioprado.wordpress.com.