Quim. Nova, Vol. 32, No. 4, 875-878, 2009 Artigo *e-mail: celeghin@fea.unicamp.br DESENVOLVIMENTO E VALIDAÇÃO DE METODOLOGIA ANALÍTICA POR CLAE-IR PARA DETERMINAÇÃO DE ARTEMISININA EM Artemisia annua L. Renata Maria dos Santos Celeghini * Departamento de Tecnologia de Alimentos, Faculdade de Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas, CP 6121, 13083-862 Campinas – SP, Brasil Ilza Maria de Oliveira Sousa, Ana Paula da Silva, Rodney Alexandre Ferreira Rodrigues e Mary Ann Foglio Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas, Universidade Estadual de Campinas, CP 6171, 13081-970 Campinas – SP, Brasil Recebido em 19/3/08; aceito em 24/11/08; publicado na web em 6/3/09 DEVELOPMENT AND VALIDATION OF ANALYTICAL METHODOLOGY BY HPLC-IR FOR EVALUATION OF ARTEMISININ ON Artemisa annua L. The aim of this work was to develop and validate an analytical methodology for determination of artemisinin used as antimalaric. The method was based on high performace liquid chromatography, using a CN column with mobile phase composed of methanol : H 2 O 50:50 (V/V). The results showed that the method presented linearity from 50 to 1500 μg/mL. It was considered selective, accurate, precise according to the specific resolution from ANVISA, the Brazilian regulatory agency. Keywords: Artemisia annua L.; clean-up; liquid chromatographic. INTRODUÇÃO A Artemisia annua L. (Asteraceae) é originária de regiões de cli- ma temperado da Ásia e tem sido utilizada pela medicina tradicional chinesa há vários séculos no tratamento de malária. Pesquisadores chineses estudaram mais de 30 espécies do gênero Artemisia para confirmar a atividade antimalárica das mesmas. Somente A. annua e A. apiacea Hance foram eficazes em combater o Plasmodium vivax e o Plasmodium falciparum, agentes etimológicos da malária.¹ Entre os metabólitos secundários isolados das diversas espécies do gênero Artemisia os mais característicos são as lactonas sesquiterpênicas.² A artemisinina (qinghaosu) (Figura 1), lactona sesquiterpênica, apresenta um grupo endoperóxido na molécula, que demonstrou ser essencial para a atividade esquizonticida e possui fundamental importância no tratamento de formas de malária resistente à terapia convencional com drogas, como cloroquina e mefloquina. 3 A partir da artemisinina, já foram obtidos outros derivados semi-sintéticos com maior potência antimalárica, como o artesunato e o arteméter. 4 Cerca de 40% da população mundial apresenta risco significativo de contrair a malária. Anualmente, cerca de 250 milhões de pessoas contraem a doença e mais de 1,5 milhões delas, sendo a maioria composta por crianças africanas, morrem vítimas desta doença. Em pacientes com malária grave e complicada, a mortalidade atinge entre 20 e 50% dos casos. 5 No Brasil, de acordo com o Anuário Estatístico de Saúde, editado pelo Ministério da Saúde, dentre as doenças de notificação compulsória, a malária atingiu em 1998, 1999 e 2000, valores de incidência bastante elevados, com 471.892, 637.472 e 615.245 casos notificados, respectivamente, tornando-se, portanto, aquela de maior incidência, seguida pela dengue. 6 A malária atualmente ainda atinge mais de 500 milhões de pessoas levando a óbito acima de 1 milhão de vítimas anualmente. 7 Apesar destes números, Snow et al. 8 citam que o número de casos é 50% maior que os dados oficiais divulgados pela OMS. Considerando que o teor médio de artemisinina da A. annua L., al- cançado na espécie híbrida adaptada no CPQBA, 9 é de aproximadamente 1,2% sobre o peso seco da folha, aliado à informação que o gênero Arte- misia (Asteraceae) possui lactonas sesquiterpênicas com diversas ativida- des biológicas, foi estudado o aproveitamento do resíduo de extração da artemisinina. Constatou-se que o resíduo gerado no processo de extração da artemisinina apresentava atividade antiulcerogênica, provavelmente devido à presença de lactonas sesquiterpênicas, deoxiartemisinina e di- hidroepideoxiartenuína b (Figura 1), que parecem aumentar o conteúdo de prostaglandinas na mucosa gástrica. 10,11 Para viabilizar o controle de qualidade do processo descrito acima percebemos a necessidade de uma metodologia de controle de qualidade que permitisse monitorar o princí- pio ativo antimalárico simultaneamente com as lactonas sesquiterpênicas, deoxiartemisinina e di-hidroepideoxiartenuína b, contidas no extrato bruto. Diante da semelhança da estrutura química dos compostos 1 e 2 (Figura 1), com exceção do grupo endoperóxido, propusemos determinar uma metodologia rápida e eficiente capaz de monitorar a artemisinina e no futuro, quando estiverem disponíveis padrões analíticos de alta pureza, as outras duas lactonas presentes na planta. A cromatografia líquida de alta eficiência CLAE tem sido am- plamente empregada para quantificar a artemisinina e os compostos análogos, utilizando-se vários métodos de detecção. Zhao e Zeng 12 e Qian et al., 13 utilizaram a técnica de derivatização pré-coluna para converter a artemisinina em um composto com absorção no UV, au- mentando o coeficiente de excitação para comprimentos de onda mais altos. Green et al. 14 utilizaram o detector de quimioluminescência, Figura 1. Estrutura das lactonas sesquiterpênicas artemisinina 1, deoxiar- temisinina 2 e di-hidroepideoxiartenuína b 3