REVISTA DE HISTÓRIA FFLCH-USP 1997 RESUMO: Os dois principais manuais de fazendeiro publicados no Brasil na primeira metade do século XIX, a saber, o manual de Carlos Augusto Taunay (1837) e o de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck (1847), inauguraram uma nova abordagem sobre a administração do trabalho escravo na literatura agronômica brasileira. Este artigo analisa as prescrições contidas nesta nova abordagem, e procura fornecer uma explicação para o surgimento dessa atitude inédita sobre a administração do trabalho escravo. ABSTRACT: The two main planter’s guides published in Brazil in the first half of the 19th century - one written by Carlos Augusto Taunay (1837) and another by Francisco Peixoto de Lacerda Werneck (1847) - inaugurated in the agronomic literature a new approach to the problem of the management of the slave labour. This article analyses the precepts of this new approach and tries to give an explanation about the origin of this exceptional attitude concerning the management of the slave labour. PALAVRAS-CHAVE: administração, trabalho escravo, controle social, tráfico negreiro, Brasil Império. KEYWORDS: management, slave labour, social control, slave trade, Imperial Brazil. Rafael de Bivar Marquese Doutorando no Depto. de História - FFLCH/USP A ADMINISTRAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO NOS MANUAIS DE FAZENDEIRO DO BRASIL IMPÉRIO, 1830-1847 * Na primeira metade do século XIX, e em especial a partir da década de 1830, publicou-se no Brasil uma quantidade considerável de escritos (artigos, panfle- tos, memórias econômicas, manuais agronômicos) que cuidavam da agricultura escravista brasileira 1 . Dentre estas publicações, as que mais se destacaram foram os manuais de fazendeiro, livros que procura- * Este artigo foi composto a partir de um tópico do cap. III de minha dissertação de mestrado, Administração & Escra- vidão. Um estudo das idéias sobre a gestão da agricultura escravista brasileira, apresentada em abril de 1997 ao Depto. de História - FFLCH/USP. 1 Estes textos foram publicados, em sua maior parte, nos períodicos O Patriota (Rio de Janeiro, 1813-1815) e O Auxiliador da Indústria Nacional, editado no Rio de Janeiro a partir de 1833.