Sobre a escritura, o luto e a festa Bruno Mafra Ney Reinhardt 1 Relendo a Léa após alguns anos de separação física, vejo que nada mudou, e esse pequeno prólogo refere-se àquilo que não mudou (ou, em um registro mais formal, não se diferenciou em seu modo de diferenciar). Rero-me a um traço que cruza todos os textos desta compilação e que me deixou com a sensação de volta ao lar: uma relação cuidadosa mas passional com as práticas mais fundamentais da vida acadêmica, a leitura e a escritura. Nesse sentido, ler Viagens textuais foi para mim uma viagem de volta aos meus tempos de aluno da Universidade Federal de Minas Gerais (Ufmg), onde durante aulas e grupos de leitura e pesquisa organizados por Léa passáva- mos por uma pedagogia silenciosa, onde (para car com o Bateson citado por ela) aprendíamos a aprender. Um dos segredos de qualquer deutero- aprendizagem é a capacidade de ensinar sem trazer de modo explícito e relexivo para o primeiro plano (como um modelo formal ou regras de conduta) aquilo que está sendo em última instância transmitido ao apren- diz. Trata-se, portanto, de um ensinar incorporado no nível da prática e do estilo, onde forma e conteúdo são indissociáveis. No bojo do fazer-ensinar, ao qual fui silenciosamente atraído, está a importância de se cultivar uma prática de leitura a um só tempo rigorosa e generosa. Sob esse ponto de vista, ler é sempre entrar respeitosamente em um cânone, em uma história do discurso, ao invés de buscar a inovação a qualquer custo, muitas vezes através da inlação estética de nossas ideias, um dos hábitos mais irritantes na academia contemporânea. De forma alguma, esse modo de ler signi- ca não simplesmente corroborar os “antigos”, mas sim submetê-los a uma 1 Doutor em Antropologia pela Universidade da Califórnia, em Berkeley (2013). Pós-doutorado na Utrecht University (2014).