Resumo : Focalizando os recursos na velhice nas áreas “saúde física” e “actividades da vida diária” o estudo apresenta-se centrado nas diferenças de género. Participaram na investigação 119 idosos utentes da resposta social “serviço de apoio domiciliário” do concelho de Penamacor, tendo sido a "saúde física" e as "actividades da vida diária" avaliadas através do Americans Resources and Services Program (OARS). Os sujeitos da amostra apresentam idades superiores a 70 anos, sendo 64% mulheres, 63% viúvos e 71% analfabetos. As conclusões apontam pontuações médias ao nível das ordens na escala compósita “saúde física” e “actividades da vida diária” muito próximas quando comparamos as mulheres idosas com os seus congéneres masculinos - não se revelando as diferenças ao nível estatístico significativas. Objectivo : O presente estudo objectiva avaliar a saúde física e as actividades da vida diária de idosos de utentes da resposta social serviço de apoio domiciliário sediada no concelho de Penamacor. Neste sentido, delineámos um estudo transversal de natureza descritivo- correlacional. Amostra : A amostra é constituída por 119 indivíduos beneficiários do Serviço de Apoio Domiciliário de uma Instituição Particular de Solidariedade Social com sede no Concelho de Penamacor, denominada Lar Residencial Dona Bárbara Tavares da Silva. Seleccionámos esta instituição porque é a que apresenta maior número de utentes na referida resposta social no concelho. A recolha de informação junto dos inquiridos realizou-se entre os meses de Março e Maio de 2009. Material : Foi utilizado para a recolha de dados o Older Americans Resources and Services Program (OARS), questionário desenvolvido pelo Center for the Study of Aging and Human Development da Universidade de Duke nos Estados Unidos da América - validado para português europeu por Rodrigues (2008). O questionário OARS é constituído por 70 perguntas dirigidas aos idosos e 10 perguntas dirigidas a um informante (quando os idosos não podem responder ou quando as respostas não são consideradas fidedignas) (Ferreira, Rodrigues, & Nogueira, 2006). Este universo de perguntas permite a avaliação em cinco escalas: Recursos Sociais; Recursos Económicos; Saúde Mental; Saúde Física e Actividades da Vida Diária. São apresentados os dados provenientes das variáveis “Saúde Física” (avalia o bem-estar físico do idoso, relata as doenças que lhe estão diagnosticadas e a medicação que está a tomar) e “Actividades da Vida Diária” (estas actividades encontram-se operacionalizadas em duas áreas: actividades da vida diária instrumentais (AVDi) e as actividades da vida diária físicas (AVDf). . Discussão : Os resultados da presente investigação permitiram constatar que os idosos da amostra são maioritariamente do género feminino. Estes valores vão ao encontro das estatísticas nacionais. Relativamente à saúde física, constatamos que é a população feminina que recorre mais vezes ao médico. As doenças mais mencionadas são a hipertensão arterial, problemas cardíacos. Das doenças que elencam as que apresentam maiores consequências nas actividades de vida diária são o acidente vascular cerebral e artrite ou reumatismo. Em síntese podemos afirmar que a população inquirida apresenta limitações na sua saúde física. A maioria apresenta “limitação moderada” com uma percentagem de 37,8. A “limitação grave” e a “limitação total” perfazem ±25% dos inquiridos. No que concerne às actividades da vida diária instrumental (utilização do telefone, deslocar-se, ir às compras, preparar as refeições, executar as tarefas da casa, tomar medicamentos e lidar com dinheiro), verificamos que os inquiridos conseguem realizar essas actividades com alguma ajuda. Quanto às actividades da vida diária física (capacidade de comer, vestir e despir, cuidar da aparência, levantar-se e deitar-se na cama, tomar banho e ir à casa de banho), a maioria da população não necessita de ajuda para as realizar, têm um bom nível de autonomia. AVD Físico Comer vestir-se e despir-se cuidar da aparência Andar levantar-se e deitar-se na cama Tomar banho ou duche problemas de incontinência frequência de Incontinência U 1531,0 1595,5 1583,5 1544,0 1619,0 1197,5 1567,5 18,0 W 2477,0 4521,5 2529,5 4470,0 4545,0 4123,5 2513,5 96,0 p 0,214 0,748 0,646 0,524 0,894 0,005 0,592 0,398 Tabela 3 - Determinação de diferenças entre géneros ao nível das AVD – Físico AVD Instrumental capaz de utilizar o telefone capaz de ir a locais não a pé Capaz de ir às compras capaz de preparar refeições capaz de fazer as tarefas de casa capaz de tomar medicamentos capaz de lidar com o dinheiro U 1182,0 1602,0 1511,0 1530,0 1393,5 1103,5 1336,5 W 3597,0 4528,0 2457,0 2476,0 2339,5 1769,5 4262,5 p 0,502 0,846 0,544 0,510 0,192 0,567 0,076 Tabela 4 - Determinação de diferenças entre géneros ao nível das AVD – Instrumental Recursos na velhice: um estudo sobre a saúde física e as actividades da vida diária de idosos beneficiários do serviço de apoio domiciliário Fernanda Daniel (1), Ana Mafalda Ribeiro (2), Sónia Guadalupe (3), Alexandre Gomes da Silva (4) (1) Investigadora do CEPESE, Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade; Professora Auxiliar do ISMT, Instituto Superior Miguel Torga; E-mail: fernanda-daniel@ismt.pt. (2) Assistente Social; Mestre em Serviço Social. (3) Investigadora do CEPESE, Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade; Professora Auxiliar do ISMT, Instituto Superior Miguel Torga; E-mail: guadalupe@ismt.pt. (4) Investigador do IBILI-FMUC, Instituto Biomédico de Investigação de Luz e Imagem da Universidade de Coimbra , Professor Adjunto do ISCAC/IPC Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra (ISCAC); E-mail: asilva@iscac.pt. Referências bibliográficas: Baltes, P. (1997). On the incomplete architecture of human ontogeny: selection, optimization and compensation as foundation of developmental theory. American Psychologist, 52, 366 -380. Barreto, S. M. & Figueiredo, R. C. (2009) Doença crônica, auto-avaliação de saúde e comportamento de risco: diferença de gênero. Revista Saúde Pública [online]. 43, 38-47. Acedido em 16 de Março de 2011 em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v43s2/ao800.pdf Bonita, R. (1996 ). Women, ageing and health: Achieving health across the life-span. Geneva: World Health Organisation. Acedido em 15 de Março de 2011 em: http://whqlibdoc.who.int/hq/1996/WHO_HPR_AHE_HPD_96.1_2nd_ed.pdf Cruz, I.B.M., Almeida, M.S.C., Schwanke, C.H.A., & Moriguchi, E.H. (2004) Prevalência de obesidade em idosos longevos e sua associação com fatores de risco e morbidades cardiovasculares. Rev Assoc Med Bras, 50(2),172-177. Daniel, F. (2006). O Conceito de Velhice em Transformação. Interacções, 10, 113-121. Daniel, F. [no prelo]. Sete mulheres para cada homem? Uma análise sobre relações de masculinidade. Interacções. Ferreira, P., Rodrigues, R. & Nogueira, D. (2006). Avaliação multidimensional em idosos. Coimbra: Mar da Palavra. Fragoeiro, I. (2008). A Saúde Mental das Pessoas Idosas na Região Autónoma da Madeira. Dissertação de Mestrado não publicada, da Universidade do Porto. Acedido em 15 de Março de 2011 em: http://digituma.uma.pt/bitstream/10400.13/88/1/TeseFragoeiro.pdf OMS. (2002). 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Física - visão Física - audição Física - avaliação da saúde em geral U 1190,0 1540,5 1427,0 W 2136,0 2486,5 4353,0 p 0,008 0,534 0,112 Resultados : Tabela 1 - Determinação de diferenças entre géneros nas variáveis visão, audição e saúde em geral Avaliação da saúde física Avaliação Actividades da Vida Diária U 1417,5 1623,0 W 2363,5 2569,0 p 0,204 0,944 Tabela 5 - Determinação de diferenças entre géneros ao nível das escalas compósitas de Avaliação da Saúde Física e Actividades da Vida Diária Género Masculino Feminino Média Total Quantas vezes foi visto/a pelo médico nos últimos seis meses, sem estar internado/a num hospital? Mín: 0 Máx: 8 M: 2,09 DP: ±2,12 Mín: 0 Máx: 8 M: 2,45 DP: ±2,24 M: 2,32 DP: ±2,20 Medicamentos receitados no último mês Fi - % Fi -% N - % 1ºs Para a hipertensão arterial (tensão alta) 19 – 52,8% 32 – 47,1 51 – 49% 2ºs Para a dor (distintos dos anteriores) 7 – 19,4% 27 – 39,7 34 – 32,7% 3ºs Para a insuficiência cardíaca ou arritmias 12 – 33,3% 2 – 2,9% 28 – 26,9% 4ºs Para melhorar a circulação 6 – 16,7% 15 – 22,1% 21 – 20,2% Doenças que interferem com as AVD Fi -% Fi -% N - % 1ºs Artrite ou Reumatismo) 2– 0,17% 9 – 0,75 11 – 0,92% 1ºs Consequências de AVC 3 – 0,25% 8 – 0,67 11 – 0,92% 3ºs Problemas Cardíacos 3 – 0,25% 6 – 0,5% 9 – 0,75% 4ºs Enfisema ou Bronquite Crónica 3 – 0,25 4 – 0,33% 7 – 0,58% Tabela 2 – Descritiva de indicadores de saúde física