O que torna filosófica uma conversa - Anotações sobre método para a filosofia com as crianças Luca Mori Doutor pela Universidade de Pisa traduzido por Benedetta Bisol, revisão técnica de Herivelto P. Souza 1. Premissa Existem muitos modelos de atividade associando a filosofia às crianças, modelos que se referem, em geral, à importância da conversa: assim, mostra-se importante perguntar o que torna filosófica uma conversa desse gênero – para distingui-la das tantas outras conversas possíveis –, e quais são, do ponto de vista metodológico, os pressupostos que devem ser levados em conta e as caraterísticas de uma “postura” suficientemente boa para o formador. Este artigo pretende contribuir para a reflexão, referindo-se a algumas experiências realizadas, a partir de 2005, nas escolas públicas infantis das cidades de Modena e Rosignano Marittimo. 2. Os "motivos do espanto” Para começar, pode ajudar-nos um pensamento de Ludwig Wittgenstein, que nas Investigações filosóficas (§123) escreve: “Um problema filosófico tem a forma: ‘eu não sei me guiar’” . Nós humanos 1 instituímos conexões de sentido no mundo ao nosso redor. Onde algo não retorna e nos deparamos com um enigma, ou com figuras que nos aparecem como confusas, podemos tentar remediar identificando correlações e analogias significativas para nós, ou seja, criando hipóteses. Escreve ainda Wittgenstein: Imaginemos uma espécie de quebra-cabeças com imagens: não há um objeto particular para descobrir; à primeira vista, parece-nos um aglomerado de linhas sem sentido, e só depois de algum esforço conseguimos vê-lo como, digamos, um desenho de uma paisagem. — Onde reside a diferença entre a observação do desenho antes e depois da solução? — É evidente que, das duas vezes, o vemos de forma diferente. Mas o que significa dizer que depois da solução o desenho representa algo para nós, enquanto antes nada representava? (Zettel, §195) 2 Podemos também não estar de acordo, ou mudar de ideia, como fazem Hamlet e Polônio, olhando uma nuvem: No original: Ein philosophisches Problem hat die Form: “Ich kenne mich nicht aus”. Optamos por propor 1 uma tradução própria. O verbo alemão auskennen, composto pelo verbo kennen (conhecer) e pelo prefixo aus, indica familiaridade com algo, conhecimento aprofundado de algo, de uma determinada matéria, de um contexto e também de um lugar. Cf. o verbete auskennen do Digitales Wörterbuch der Deutschen Sprache [Dicionário Digital da Língua Alemã], publicado on-line pela Berlin-Brandenburgische Akademie der Wissenschaften [Academia das Ciências de Berlim]: https://www.dwds.de. (N.T.) Reproduzimos aqui, com modificações, a tradução de Ana Berhan da Costa: Fichas (Zettel). Lisboa: Ed. 2 70, 1989. (N.T.)