Cienc Cuid Saude 2007 Jul/Set;6(3):291-299 RELATO DE DOIS CASOS DE INTOXICAÇÃO INTENCIONAL EM ADOLESCENTES 1 Luiza Jane Eyre de Souza Vieira * Daniela Serpa Moura Silva ** Samira Valentim Gama Lira *** Rita Neuma Dantas Cavalcante de Abreu **** Mirian Calíope Dantas Pinheiro ***** RESUMO A intoxicação do tipo intencional pode acontecer a partir da vivência de uma situação de angústia e conflitos e se caracteriza, muitas vezes, por tentativas suicidas, sendo a fase da adolescência o período de maior vulnerabilidade. O estudo retrata as causas de tentativas suicidas em adolescentes atendidos em um hospital público, em Fortaleza - CE. Trata-se de um estudo convergente-assistencial, realizado entre os meses de fevereiro e abril de 2005. Os sujeitos foram dois adolescentes admitidos na emergência hospitalar por intoxicação intencional. A coleta de dados foi feita por meio de entrevista semi-estruturada, observação participativa e anotações no diário de campo. Os resultados apontaram como causas das tentativas suicidas perdas afetivas, e a estrutura familiar se configurou como coadjuvante da construção da idéia e da concretização dessa tentativa. Deste modo, os processos familiares que proporcionam alterações de sentimento, como tristeza, abandono e outros, comportam-se como fatores de risco para a tentativa de suicídio. Assim, considera-se que a família, os profissionais da saúde e da educação, bem como a sociedade como um todo, devem estar atentos às fases da adolescência, e, analisando seus componentes biológicos, psicodinâmicos, familiares e sociais, agir com uma postura de “previsibilidade” contra as tentativas suicidas nessa fase do ciclo vital. Palavras-chave: Adolescente. Intoxicação. Tentativa de suicídio. 1 Trabalho apresentado no 8° Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, no 11° Congresso Mundial de Saúde Pública e no XI Encontro de Iniciação à Pesquisa da Universidade de Fortaleza. Este trabalho contou com auxílio financeiro e material do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Processo n. 50.4458/2004-3. * Enfermeira. Professora Titular do Curso de Enfermagem e do Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Instituto Dr. José Frota. Fortaleza, Ceará. ** Enfermeira do Programa de Saúde da Família. Prefeitura Municipal de Ararendá, Ceará. *** Enfermeira. Aluna do Mestrado em Saúde Coletiva da UNIFOR. Bolsista da CAPES. **** Enfermeira. Aluna do Mestrado em Cuidados Clínicos em Saúde da Universidade Estadual do Ceará (UECE). ***** Enfermeira. Professora Titular do Curso de Enfermagem da UNIFOR. Coordenadora do grupo “Adolescer com Saúde”, no Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI-UNIFOR). INTRODUÇÃO As intoxicações constituem um problema de saúde pública, em face das altas taxas de prevalência. De 2000 a 2002 o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) identificou 306.007 casos de intoxicação humana. No ano de 2002, 25 dos 33 Centros de Informação e Assistência Toxicológica em atividade no Brasil registraram 75.212 casos de envenenamento, observando- se as maiores letalidades nos casos de intoxicação por agrotóxicos (2,3%) e raticidas (1,4%) (1) . Embora o Sinitox seja um sistema de referência para a América Latina, é importante reconhecer que ainda padece de importante subnotificação, causada pela não- obrigatoriedade do registro e falta de uniformidade dos dados em relação às ocorrências (2) . A intoxicação não é um agravo de notificação compulsória no Brasil, sendo os dados subestimados (3) .