Revista Calundu - vol. 1, n.1, jan-jun 2017 37 FAXINANDO COM A VODUNSI 1 Guilherme Dantas Nogueira 2 Resumo: Objetivo com este artigo mostrar que a autoridade de uma mulher candomblecista é construída a partir de uma lógica vivencial, em que posições hierarquicamente mais elevadas são alcançadas a partir de seu tempo de iniciação e da partilha em papeis comunitários e religiosos variados, pelos quais todas devem passar. Isso é parte do longo caminho iniciático candomblecista, que envolve, dentre outros diversos elementos, solidariedade, abraços, rezas e faxinas. Este caminho é debatido no texto e reflexões são apresentadas em caráter decolonial. Como ponto central do debate, narro uma experiência de faxina que vivenciei com uma mãe candomblecista angoleira velha de santo. Alguns elementos e sentimentos presentes nesta interação são apresentados e analisados. O grande respeito e a autoridade que aquela mãe me suscitava, aliado a meu lugar de fala como ogan, deram o tom da interação. O caráter feminino, subversivo e nada ascético do Candomblé complementa o conjunto de observações e considerações tecidas no texto. Palavras-chave: Candomblé; mãe candomblecista; ogan; gênero; faxina. Introdução Este texto nasce de uma experiência e de um constrangimento que experimentei em janeiro de 2017, durante uma mudança de casa. Como parte do trabalho de esvaziar o apartamento em que morava e levar minhas coisas para a casa nova, precisei contratar um trabalho profissional de limpeza. Para tanto, aceitei a recomendação de uma faxineira indicada por uma amiga, a vodunsi Dandinha, religiosa de cargo alto em um terreiro de Candomblé de Brasília/DF. Para a minha surpresa, a faxineira indicada era uma candomblecista de autoridade ainda maior, àquele momento com 46 anos de santo 3 , chamada mãe Sinhá. A interação daquele dia de faxina, aliada ao meu sentimento de profundo respeito por aquela senhora, motivaram-me a escrever este artigo. Proponho aqui, assim, 1 O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Brasil. Texto versa sobre questões em pesquisa pelo autor como parte de sua tese de doutorado. 2 Doutorando em Sociologia, pela Universidade de Brasília, orientado pela professora doutora Tânia Mara Campos de Almeida. Integrante do Calundu Grupo de Estudos sobre Religiões Afro-Brasileiras. guidantasnog@gmail.com. 3 A expressão “anos de santo” se refere ao tempo como iniciada que uma pessoa tem no Candomblé. Conforme antiga expressão angoleira, no Candomblé, “antiguidade é posto”. Ou seja, quanto mais velha de santo for uma pessoa, mas distinta será.