Artigo Original Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2007;12(4):287-91 Trabalho realizado na Faculdade de Medicina do ABC – FMABC – Santo André (SP), Brasil. (1) Mestre, Fonoaudióloga do Setor de Disfagia Neonatal, Pediátrica e Adulto do Hospital Estadual Mário Covas – Santo André (SP), Brasil. (2) Professor Adjunto da Faculdade de Medicina do ABC – FMABC – Santo André (SP), Brasil. Recebido em: 6/11/2006; Aceito: 10/10/2007 Disfagia orofaríngea em pacientes submetidos à entubação orotraqueal Oropharyngeal dysphagia in patients submitted to orotracheal intubation Michele Ramos Grigio Kunigk 1 , Ethel Chehter 2 RESUMO Objetivo: Detectar e caracterizar as alterações da fase oral e faríngea da deglutição, bem como verificar a ocorrência de penetração e aspiração laríngeas em pacientes submetidos à entubação orotraqueal. Métodos: O estudo incluiu 30 adultos internados na unidade de tratamento intensivo do Hospital Estadual Mário Covas, que receberam entubação orotraqueal no período de 40 horas a 15 dias. Todos foram submetidos, por duas vezes, à avaliação endoscópica da deglutição, na primeira e segunda semanas, após a extubação, sendo observadas as alterações da fase oral e faríngea da deglutição e a presença de penetração e aspiração laríngeas. Resultados: Na primeira avaliação, as alterações da fase oral estiveram presentes em 19(63,3%) pacientes e, na segunda, em 12(40%). As alterações da fase faríngea ocorreram na primeira avaliação em 27(90%) pacientes e, na segunda, em 8(26,7%). A penetração e a aspiração laríngeas foram detectadas nas duas avaliações, sendo diferentes para cada consistência e volume testados. Conclusão: A população submetida à entubação orotraqueal após a extubação apresenta alterações das fases oral e faríngea da deglutição caracterizadas por uma variedade de comprometimentos e acompanhadas de penetração e aspiração laríngeas. DESCRITORES: Transtornos da deglutição/etiologia; Transtornos da deglutição/ diagnóstico; Respiração artificial/efeitos adversos; Respiradores mecânicos/utilização INTRODUÇÃO A entubação orotraqueal é comumente utilizada nas uni- dades de tratamento intensivo em pacientes graves que ne- cessitam de auxílio para a manutenção da respiração; po- rém, apesar dos benefícios, pode causar ao trato respiratório superior complicações significantes para determinar prejuí- zos no processo da deglutição (1-2) . O processo da deglutição envolve estruturas ósseas, mus- culares e cartilaginosas do trato digestório e respiratório, atu- ando de forma coordenada para encaminhar o bolo alimen- tar até o estômago, sendo que qualquer desequilíbrio pode determinar prejuízos à sua função (3-5) . A entubação orotraqueal prolongada pode proporcionar lesões na cavidade oral, faringe e laringe, que causam dimi- nuição da motricidade e da sensibilidade local e comprome- tem o processo da deglutição, determinando as disfagias orofaríngeas. Estas podem desencadear problemas como a desnutrição e a pneumonia aspirativa, piorando significan- temente o estado clínico do paciente internado. A introdução da alimentação por via oral, nos pacientes que fizeram uso de tubo orotraqueal, deve ser cuidadosa a fim de garantir a nutrição adequada e evitar complicações respiratórias. Dessa forma, realizamos esse estudo com o objetivo de detectar e caracterizar as alterações da fase faríngea da deglutição, bem como verificar a ocorrência de penetração e aspiração laríngeas em pacientes submetidos à entubação orotraqueal. MÉTODOS Para a realização deste estudo, o projeto foi enviado ao Comitê de Ética da Faculdade de Medicina do ABC, o qual foi aprovado sob o registro 202/2005. Neste estudo prospectivo, aberto e seqüencial, foram in- cluídos 30 pacientes, internados na Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital Estadual Mário Covas de Santo André, submetidos à entubação orotraqueal por mais de 48 horas e até 15 dias, já que, após esse tempo, é necessária a realiza- ção da traqueostomia. Foram considerados como critérios de inclusão: adultos com tempo de extubação entre dois e sete dias, estabiliza- dos clinicamente e liberados pela equipe médica para ava- liação da alimentação por via oral. Foram excluídos do es- tudo os pacientes portadores de doenças degenerativas, traqueostomia, dificuldades de alimentação prévia à internação e que tivessem recebido alimentação por via oral após a extubação.