BAGUNÇANDO AS NORMAS DE GÊNERO: CRIANÇAS TRANSVIADAS E A INVENÇÃO DE OUTROS POSSÍVEIS NO CURRÍCULO ESCOLAR João Paulo de Lorena Silva 1 Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG. Marlucy Alves Paraíso 2 Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG. Durante muito tempo, desde a sua invenção moderna, o corpo infantil foi pensado sob o signo da atemporalidade, ingenuidade e dependência (ARIÈS, 1981). Essas significações atribuídas aos infantis foram naturalizadas de tal modo que pais, mães, educadores e educadoras foram “impedidos de pensar problematizando os discursos que [os] produzem deste modo” (DORNELLES, 2005, p. 11). Discursos que, “no interior de um sistema estratégico em que o poder está implicado” (FOUCAULT, [1978] 2006, p. 253), acabaram por produzir um modo de pensar a infância marcado pelo universal, natural e a-histórico, impedindo-nos de olhar para a emergência de infâncias outras, “infâncias que nos escapam” (DORNELLES, 2005, p. 71), infâncias queer (PRECIADO, 2013), transviadas, estranhas, bichas, sapatonas e transgêneras. Este trabalho instala-se nos territórios movediços do currículo escolar para pensar a “infância como produto de uma trama histórica e social na qual o adulto que com ela convive busca capturá-la através da produção de saberes e poderes com vistas a seu gerenciamento” (DORNELLES, 2005, p. 12). Pretende, contudo, mostrar como os corpos infantis, resistindo aos diferentes mecanismos de poder, rebelam-se, contestam e bagunçam as normas que os querem produzir e governar. Para isso, tomando como base resultados de uma pesquisa que investiga a emergência de infâncias queer, poder e modos de subjetivação, em um currículo dos anos iniciais do ensino fundamental, desenvolve o argumento de que outros modos de viver e pensar as masculinidades 1 Mestrando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG, Graduado em Filosofia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino/ISTA (2014) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Currículos e Culturas (CNPq/UFMG). E-mail: joaopaulopalmas@gmail.com 2 Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e professora associada do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG e pesquisadora 1C do CNPq. E-mail: marlucyparaiso@gmail.com