Controvérsia, São Leopoldo, v. 13, n. 2, p. 156-162, mai.-ago. 2017. 156 Tradução Da simplicidade e do refinamento na escrita [A] David Hume Tradutor Bruno Henrique de Souza Soares Universidade Federal de São Paulo brunohenrique.qi@outlook.com http://lattes.cnpq.br/2296154540997166 Há certas ironias históricas que revelam muito do valor de certas obras, assim como de seu público, cabendo aos interessados interpretar seu sentido. É o que ocorre com as obras de David Hume, importante autor do Iluminismo Escocês no século XVIII. Se hoje tal autor é mais conhecido por suas obras eminentemente teóricas – o Tratado da Natureza Humana (1739), as Investigações sobre o Entendimento Humano (1748 – em parte, um desdobramento da obra de 1739) e Uma Investigação sobre os princípios da moral (1751 – também um desdobramento do Tratado) –, não foram estes importantes trabalhos que lhe trouxeram reconhecimento em vida, mas sim seus Ensaios. Estes sim eram estimados pelo seu público, talvez em virtude da variedade de assuntos em uma linguagem culta e elegante, e ao mesmo tempo acessível. Nesse gênero – inaugurado por Montaigne em 1580 –, o pensador escocês alia virtuosidade temática e profundidade intelectual, plasticidade estilística e marca pessoal, ganhando notoriedade e reconhecimento em vida. Sabemos que a tradição filosófica de leitura de David Hume, especialmente no Brasil contemporâneo, privilegia o conhecimento das obras ditas teóricas, deixando um tanto eclipsados os seus instigantes ensaios. Isto traz uma consequência, ao que parece, de produzir uma impressão de que esse filósofo habita na negatividade do ceticismo, impressão esta corroborada por um contato rápido com a oficiosa história da filosofia que habita no juízo kantiano de que “Hume o acordou do sono dogmático”. Basta passar as páginas dos Ensaios para perceber a fluidez entre uma posição filosófica do autor capaz de abordar positivamente assuntos tão variados, se posicionando efetivamente aqui e ali sobre isso ou aquilo. Assim, pode-se evitar a inversão de preferência bibliográfica (seja a de antes ou a de agora), procurando compreender Hume em seu conjunto. Nesse sentido, algumas boas traduções dos Ensaios foram realizadas para a língua portuguesa. Procura- se aqui, outrossim, oferecer generosamente mais uma contribuição ao conhecimento deste lado ensaístico de David Hume. Contribuição dupla, portanto, pois ao apresentar uma nova tradução do ensaio Da Simplicidade e do refinamento na escrita, intenta fomentar o conhecimento dos ensaios do autor com seus textos tão ricos em ideias e cativantes. Fine writing, according to Mr. ADDISON, consists of sentiments, which are natural, without being obvious. There cannot be a juster, and more concise definition of fine writing. 1 Escrever bem, de acordo com Sr. ADDISON, consiste em sentimentos, que são naturais, sem serem óbvios. Não pode ter uma justa, e mais concisa definição de escrever bem. 1* [A] Tradução feita a partir de HUME, David. Of simplicity and refinement in writing. In: ______. Essays: moral, political and literary. Edited by Eugene Miller. Indianapolis: Liberty Fund, 1985. p. 191-196. 1 [Joseph Addison, The Spectator, n. 345 (5 April 1712). In Donald F. Bond, ed., The Spectator (Oxford: Clarendon Press, 1965), 3:284.]