64 A contribuição da revista piauí para uma cultura científica 1 Juliano Maurício de Carvalho Mateus Yuri Ribeiro da Silva Passos Introdução É quase paradoxal o fato de que, enquanto a presença na sociedade de pro- dutos e processos oriundos da pesquisa científica é crescente, a maioria da população é mal informada, ou mesmo mal formada no tocante à natureza, produção e reprodução da ciência (Vogt e Polino, 2003). Na própria mídia há um grande descompasso entre a representação de conceitos e funções de substâncias e mecanismos e a concepção que a ciência faz dos mesmos: “tanto a divulgação do seqüenciamento do genoma quanto sua cobertura pela imprensa foram marcadas por uma atmosfera de determinismo genético que já não correspondia à própria realidade da pesquisa genômica” (Leite, 2003: 1). Em certos casos, como apontado por Belda (2002), a má divulgação científica resulta principalmente da confusão de conceitos. O pesquisador identificou, na cobertura jornalística sobre organismos transgênicos, que estes eram confundidos com mutantes e híbridos, além de passarem por uma avaliação qualitativa que oscilava entre progresso e precaução. A linguagem científica utiliza um vocabulário excessivamente técnico e espe- cífico (Belda, 2002), do qual não poucos pesquisadores relutam em abrir mão. Uma das dificuldades na divulgação da ciência consiste na compreensão de que o papel do jornalista é o de um mero tradutor (cf. Burkett, 1990: 8-9) do jargão científico para a linguagem comum. Baseada numa cautela, com viés para o didatismo, que subestima a capacidade de compreensão do receptor, muitas vezes a tentativa de explicar a ciência de forma lúdica chega ao ponto de distorcer o discurso científico e criar um atrito entre cientistas e repórteres, estes por considerarem os cientistas ALCEU - v.9 - n.17 - p. 64 a 80 - jul./dez. 2008 artigo 4 Carvalho e Passos.indd 64 26/8/2008 14:44:40