A JORNADA DO ANTI-HEROI A história de Jesus Cristo como narrativa Marcelo Bolshaw Gomes 1 Resumo: O presente texto estuda a história de Jesus Cristo como narrativa mítica e histórica, através de diferentes versões cinematográficas e de um documentário. O objetivo é demonstrar, através do método adaptado do Quadrado Semiótico (GREIMAS, 1989), de que modo algumas adaptações enfatizam mais os aspectos históricos enquanto outras são propositalmente mais simbólicas e míticas. Ao final, percebe-se que a multiplicidade de discursos audiovisuais revela a variação dos principais elementos narrativos da história de Jesus e que as relações Ego-Self e Sombra-Outro são a essência e a singularidade da história de Jesus, causa determinante de seu sucesso histórico e alvo principal de seus mais renomados críticos. Palavras-chave: Ciências Humanas, Estudos Narrativos, Cristanismo. Title: THE ANTI-HEROI JOURNEY - The story of Jesus Christ as narrative Abstract: This text studies the history of Jesus Christ as a mythical and historical narrative, through different cinematographic versions and a documentary. The objective is to demonstrate, through the adapted method of the Semiotic Square (GREIMAS, 1989), how some adaptations emphasize the historical aspects more while others are purposely more symbolic and mythical. In the end, it is perceived that the multiplicity of audiovisual discourses reveals the variation of the main narrative elements of Jesus 'history and that Ego- Self and Shadow-Other relations are the essence and singularity of Jesus' history, the determining cause of his success Historical and main target of its most renowned critics. Keywords: Humanities, Narrative Studies, Christianity. 1. Introdução Os estudos narrativos podem ser considerados uma ‘libertação’ dos modelos discursivos científicos fixos, dos ‘paradigmas epistemológicos’. Na perspectiva narrativa, a sociologia, a antropologia, a psicologia são apenas histórias, com personagens, enredos, situações dramáticas. As escolas – funcionalista, marxista, psicanalítica, etc - também podem ser vistas como ‘meta narrativas’, como formas de ler e contar histórias. O importante é O que transmito do que me disseram (GOMES, 2016). Isto não significa que os estudos narrativos sejam melhores ou mais abrangentes que outras modalidades de saber, mas que eles são transversais e complementares às outras formas de conhecimento. A narrativa é uma dimensão e não um objeto. Os próprios estudos narrativos também podem ser vistos como uma narrativa aberta ainda em construção; e as diferentes escolas de estudos narrativos (clássica, mitológica, estruturalista e hermenêutica 2 ) podem ser consideradas modelos meta narrativos de intepretação. 1 Jornalista, doutor em ciências sociais, professor-pesquisador do Programa de Pós Graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). 2 A interpretação hermenêutica de Paul Ricoeur forma o quarto momento dos Estudos Narrativos, absorvendo os conceitos de Aristóteles, a leitura psicológica da mitologia de Campbell, as classificações discursivas do estruturalismo e sua síntese greimasiana. Ricouer constata que não há diferenças estruturais entre as narrativas reais e as imaginárias. A tese central da trilogia Tempo e Narrativa (RICOEUR: 1994; 1995; 1997) é afirmar a identidade estrutural entre historiografia científica e narrativa ficcional. Narrar história é enredar pessoas, instituições e ideias, é também enredar-se como narrador – seja em textos científicos ou jornalísticos.