R. Museu Arq. Etn., 27: 179-196, 2016 179 Caminhos e Paradas. Perspectivas sobre o território Laklãnõ (Xokleng) Juliana Salles Machado* MACHADO, J.S. Caminhos e Paradas. Perspectivas sobre o território Laklãnõ (Xokleng). R. Mus. Arq. Etn., 27: 179-196, 2016 Resumo: Há 100 anos do primeiro aldeamento forçado dos Xokleng/Laklãnõ do Estado de Santa Catarina vemos um momento de intensa movimentação social e política entre esta população indígena. Empenhados em um projeto de fortalecimento de sua identidade étnica, os Laklãnõ (Xokleng) têm buscado na história, no passado e na memória um caminho para o seu futuro. Desde pelo menos a década de 1970, esta população indígena tem participado na produção de conhecimento científico como interlocutores em diversas pesquisas. Sua memória é tecida a partir de fios da história oral juntamente com discursos acadêmicos oriundos de diversas disciplinas ao longo desta trajetória de contato. Hoje inse- ridos no âmbito acadêmico eles vem construindo um projeto cultural para o seu povo baseado em um complexo emaranhado de saberes e conhecimentos que extrapolam as divisas entre local-global, êmico-ético, saber nativo - conhecimento científico. Neste trabalho pretendo refletir sobre nossas próprias construções e práticas na pesquisa arqueológica a partir dos trabalhos feitos por acadêmicos indígenas sobre o eixo do passado-presente. Palavras-chave: Laklãnõ (Xokleng); Memória; Identidade étnica; Saberes; Acadêmicos indígenas. A pesar de não ter contornos bem definidos, o território tradicional dos grupos Laklãnõ (Xokleng), conforme apon- ta Santos (1973), compreendia à época do contato as áreas de Mata Atlântica no litoral e na encosta de serra, bem como as bordas do planalto recoberto por Mata de Araucárias na porção sudeste e sul do Brasil. Os limites do território tradicional deste povo ficaram conhe- cidos na literatura como os seguintes: ao norte, em Paranaguá no Paraná; ao sul nas proximida- des de Porto Alegre e à noroeste, nas florestas nas proximidades do Rio Iguaçu e campos de Palmas (Santos 1973, Noelli 1999-2000, Lavina 1999, Pereira 1998). Os assentamentos arqueologicamente conhecidos relacionados ao período pré-colo- nial associados aos Jê do sul, família linguística do qual esta população indígena é falante, variam de aldeias à céu aberto, abrigos-sob-ro- cha, sambaquis fluviais e costeiros e estruturas subterrâneas (Piazza 1967; Eble 1973; Schmitz et al. 2009; Noelli 1999-2000, 2004; Farias 2005; Cortelleti 2012). Tal diversidade de contextos foi interpretada por Noelli (1999-2000: 242) como relacionada a um “processo contínuo de guerra e desterritorialização [que] causou mudanças significativas na cultura material, nos padrões de adaptação e na organização social e política” destes povos. Atualmente, apesar da grande quantidade de pesquisas arqueo- (*) Professora Visitante do Programa de Pós-Graduação em História, Departamento de História da Universidade Fede- ral de Santa Catarina. Pesquisadora do LEIA-UFSC. <julianasallesmachado@gmail.com>