1 Da confusĆo eŶtƌe as fuŶçƁes ŵedida de valoƌes e padƌĆo de pƌeços Eleutério F. S. Prado 1 Introdução A questão do dinheiro na obra madura de Marx tem sido objeto de controvérsias que parecem não chegar a um bom termo. Assim, uma das categorias mais centrais da teoria crítica que mais se esforçou para apreender o capitalismo tem sido foco de polêmicas intermináveis. O próprio Marx aponta em sua obra maior, tendo por referência o seu próprio tempo e os melhores autores, que faltava clareza em geral na compreensão desse objeto misterioso. Ora, a passagem do tempo não parece ter melhorado essa situação ao contrário, parece tê-la piorado e muito. É notório que existem autores não marxistas e mesmo autores marxistas que julgam a teoria do dinheiro que se encontra em O capital como inadequada para compreender essa forma social no capitalismo contemporâneo. Eis que, segundo eles, Marx compreendeu o dinheiro fundamentalmente como dinheiro-ouro, como dinheiro que tem valor, mas o dinheiro que circula nas economias atuais apresenta-se como puramente fiduciário, como dinheiro sem valor substantivo. Os autores não marxistas, por isso, acham que é possível jogá-la simplesmente na lata do lixo da história do pensamento econômico; eis que, assim, se sentem em posição mais confortável para sustentar alguma outra teoria que julgam mais apropriada à explicação do funcionamento do sistema. Os autores marxistas referidos, ao contrário, esforçam-se para emendá-la de algum modo, pois pretendem fazer com que subsista como uma alternativa radical às formas de pensamento que, em última análise, não contestam esse sistema. Para eles, esse sistema não se caracteriza principalmente pelos mercados, mas sim pela relação de capital. É preciso arrolar alguns exemplos. Don Lavoie, economista norte-americano da corrente neo-austríaca, foi direto ao ponto supostamente mais frágil da teoria do dinheiro de Marx, num artigo escrito em 1986: Esfoƌçaƌ-me-ei para mostrar que a análise de Marx do valor de troca objetivo do dinheiro não pode ser facilmente reconciliada com um fato imediato da realidade contemporânea, isto é, com a existência de dinheiro simbólico que tem valor, mas se encontra desconectado ao valor de qualquer mercadoria ŵoŶetĄƌia ;Lavoie, ϭϵϴϲͿ. Fred Moseley, um importante economista marxista norte-americano, acolhe até certo ponto a crítica de Don Lavoie, mas a toma também como um desafio. Procurando uma solução para o problema, escreveu o seguinte: 1 Professor titular sênior da FEA/USP. Endereço eletrônico: eleuter@usp.br. Blog na internet: https://eleuterioprado.wordpress.com