Histórica – Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo, nº 40, fev. 2010 1 O SAMBA E O CARNAVAL PAULISTANO 1 Francisco de Assis Santana Mestrinel (Chico Santana) 2 Resumo: O samba é um gênero ligado diretamente ao carnaval, tendo sofrido influência das diferentes fases dessa festa em seu processo de formação e de transformação. As escolas de samba do Rio de Janeiro exerceram influência determinante na caracterização rítmica do samba. Em São Paulo, os cordões carnavalescos executavam a chamada marcha- sambada, influenciada pelos sambas rurais do interior do estado. Este artigo trata da relação entre o carnaval e o samba, apontando os diálogos e rupturas no processo de transformação desse gênero. Palavras-chave: Carnaval. Marcha-sambada. Samba rural. Cordões. Escolas de samba. O samba é um dos gêneros da música popular brasileira mais conhecidos e difundidos em nosso país. Esse verdadeiro universo conhecido por samba teve origem nas manifestações musicais dos negros africanos que vieram para o Brasil durante o período da escravidão. Cada etnia africana trouxe uma bagagem cultural e musical, que aqui passaram a conviver e a dialogar, principalmente nas regiões que concentravam maior número de escravos (primeiramente na Bahia, depois no Rio de Janeiro e nas outras regiões como São Paulo e Minas Gerais). A cultura Bantu foi uma das mais importantes para o surgimento do samba (LOPES, 2003), que também foi influenciado pela música europeia. O termo samba inicialmente designava qualquer das manifestações musicais dos negros, geralmente associadas a presença da percussão e da coreografia da umbigada (chamada de semba). No Rio de Janeiro do início do século XX, esse gênero se configurou, agregando elementos do choro e das batucadas de terreiro, além dos versos improvisados, mediados por uma incipiente cultura urbana. Nas casas das Tias Baianas, como a Tia Ciata, na região da Saúde, o samba nasce da efervescência cultural proporcionada pelo convívio de negros, oriundos principalmente da Bahia, em um ambiente urbano. Em sua primeira fase, o samba possuía uma rítmica bastante próxima à do maxixe, estilo de choro bastante popular desde 1 Este artigo foi criado a partir da dissertação A batucada da Nenê de Vila Matilde: formação e transformação de uma bateria de escola de samba paulistana, apresentada no programa de pós- graduação em música da Universidade Estadual de Campinas em 2009, sob orientação de José Roberto Zan, com financiamento da Fapesp. 2 Chico Santana é mestre em música pela Unicamp, onde atuou como professor de percussão e rítmica entre 2005 e 2007. Foi bolsista Fapesp e publicou em 2009 a dissertação “A batucada da Nenê de Vila Matilde: formação e transformação de uma bateria de escola de samba paulistana”, orientada por José Roberto Zan. Produziu com sua pesquisa um vídeo-documentário homônimo. Foi criador do Conservatório de Música Popular de Itajaí (SC), onde atuou com professor de percussão complementar de 2007 a 2009. Exerce a função de assistente de percussão no Projeto Guri, atua e dirige diversos grupos artísticos em São Paulo e Campinas, com destaque para o grupo Tambaleio e a Bateria Alcalina. Já se apresentou em importantes festivais, como o XX Havana Jazz Plaza (Cuba, 2002) e IPEW: International Percussion Ensemble Week (Croácia, 2004), e ministrou cursos no 10º e 11º Festivais de Música Popular de Itajaí.